canto do eu
19 de jul. de 2023
Pedro e o Ding
17 de jul. de 2023
Poio
Carlos e José optaram por, pelo menos este fim-de-semana, não lutar mais contra o preconceit, tirar a máscara e procurar a pureza das pedras. Carlos preparou-se com uma t-shirt, uns chinelos, os óculos escuros, uma toalha de praia, um sabonete biodegradável e a escova de dentes (tudo de marca da moda) e enfiou tudo na mochila Calvin Klein de última coleção. Sentou-se na cozinha. Comeu uns cereais de frutos silvestres enquanto esperava por José. José, sempre desleixado e desorganizado ainda mandava o último email antes de se preocupar com o que haveria de levar para o paraíso.
Foi Marco, um arquiteto lindo, que conheceram no Bairro Alto, que lhes falou daquelas cascatas onde morava a paz. Ofereceu-lhes uma cerveja artesanal para meter conversa. A ideia de paz, paraíso e pureza era tão atraente que acabaram os 4 a conversar até às 4 da manhã. Entretanto chegara o namorado, o Ivo que depois do concerto em Belém se juntou a eles. Depois das triviais conversas sobre o que fazes, onde vives, que bares gostas e todas as questões que dão inicio a uma conversa entre estranhos acabaram finalmente por entrar pelos campos mais filosóficos das inquietações de cada um. José dizia estar cansado e queria porque queria encontrar um paraíso, qualquer um onde pudesse parar e finalmente respirar sem dor no peito. Carlos, sereno e de bem com a vida, tinha ainda assim os seus momentos de tristeza. O que realemente o preocupava era a inquietação de José. Se o paraíso existisse ia para lá com ele, queria vê-lo voltar a respirar. Ivo e Marco ouviram-nos com atenção e chegou um. omento em que trocaram um olhar inquiridor entre si. Ivo acenou quase impercetivelmente em jeito de consentimento. Com a aprovação de Ivo, Marco revelou-lhes então o seu paraíso, aquele que não partilhavam com ninguem mas que - Oh Deus! Porquê? - partilhavam agora com Carlos e José. É no Poio.
Finalmente José fechou o computador, enfiou meia dúzia de coisas inúteis na mochila, pegou no mapa que Ivo desenhara e foram.
O meu paraíso e o deles ocupam o mesmo espaço, mas para ser um paraíso não podemos estar todos. Carlos e José lançaram-me um sorriso silencioso e apaziguador de quem tem pena de partir mas que entende a minha tristeza e assim adiam o paraíso deles.
Eu fico finalmente só. Os meus pensamentos estavam cada vez mais ensurdecedores, tinha que os calar. Obrigada Carlos e José por me terem deixado ficar.
O forte som das águas em queda abafou o barulho dos meus pensamentos. Finalmente o paraíso, finalmente o Poio.
Poio, 2006
27 de fev. de 2023
Silenciar
Envelhecer é silenciar
Silenciar os sonhos
Silenciar as ambições
Silenciar as convicções
Silenciar as paixões
Silenciar o choro
Silenciar o grito
Silenciar o riso
Silenciar a dor
Silenciar o medo
Silenciar a fragilidade
Silenciar a solidão
e o cansaço
Silenciar os conselhos
Silenciar as opiniões
Silenciar as certezas
E a falta delas
Silenciar o pensamento
Silenciar o que se sabe
e o que não se sabe
Silenciar até o que gostaríamos de saber
Silenciar tudo
e até o silêncio
Silenciar falando, falando muito
e rindo
Muitas vezes fingindo
E assim ir indo
Impossível
É impossivel voltar atrás
É impossivel chegar antes
É impossivel ficar parado
É impossivel parar o tempo
É impossivel mudar o destino (?!)
É impossivel mudar impossíveis (ou não seriam impossíveis)
É impossivel não morrer
É impossivel ser completamente feliz
É impossivel obrigar os outros a tornar possível para nós
É impossivel viver de impossibilidades
e quando percebemos o que é impossível revela-se mais uma parte do conceito de envelhecimento
Se hoje me perguntarem se me sinto a envelhecer posso dizer que sim, se me sinto velha, ainda não. Há partes do conceito que ainda não se revelaram mas parar o processo É impossivel - isso é um facto.
Envelhecer é compreender por fim o conceito de impossível.
24 de nov. de 2020
Ora jóias ora lama
Espanto-me todos os dias com o que aprendo com as pessoas.
Entre os muitos desabafos da minha colega Florinda este foi um dos que me ficou na memória:
23 de out. de 2020
HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA
Páro numa das pastelarias da aldeia onde vivo e quando entro vejo o ar consternado das clientes sentadas às mesas, todas mulheres. Viam na televisão uma noticia de mais uma mulher morta a tiro pelo marido. Algumas estão chocadas e em silêncio enquanto outras reagem dizendo que se fosse com elas tinham-no matado primeiro. Aos dois homens ao balcão a noticia passava completamente despercebida.
Esta noticia brutal - embora já vulgar uma vez que este ano, só até 15 de Agosto, segundo dados da OMA, foram mortas 20 mulheres em contexto de violência doméstica e mais de 25 foram vítimas de tentativa de homicídio - faz-me pensar no podcast a que dei início há apenas 3 dias, com o qual desejo dar um modesto contributo para esta questão tão complexa que é a violência doméstica.
Este podcast e esta série de histórias no blog começa com a Fernanda a contar a sua história na 1ª pessoa. Ao contrário da mulher da notícia ela conseguiu por fim ao ciclo de violência e transformar-se numa sobrevivente, mas esse não é um desfecho fácil de conseguir. Para além de todos os ingredientes práticos são também necessárias duas outras coisas muito importantes: combater o silêncio e reunir muita coragem.
Acredito que este será mais um meio ao dispor das vitimas de violência para que, ao ouvir vozes de pessoas que vivem ou viveram experiências semelhantes com que se identifiquem, consigam quebrar o silêncio e assim combater a solidão do sofrimento e um dia, quem sabe, reunir a coragem para sobreviver.
Há uma frase duma activista turca chamada Elif Shafak que me inspira muito: " Nunca, nunca fiques em silêncio por temeres a complexidade". Pois então é isso que procuro com a divulgação em viva voz destes testemunhos, isto é, disponibilizar mais um meio de falar, deitar para fora, mesmo sabendo que esta questão é muito complexa.
Sempre achei que o silêncio é mortífero e digo isso neste post, mas no campo da violência ele dá poder à arma que mata, à violência.
Então deixo aqui dois apelos:
- DIVULGUE este blog, que é muito mais do que histórias de violência, mas principalmente o podcast, que pode ouvir aqui ou partilhar este link https://anchor.fm/maria-jo343o-iliveira
- SUBSCREVA o podcast aqui para não perder nenhuma história. Tem aqui um passo-a-passo de como fazê-lo
- CONTE A SUA HISTÓRIA, não fique em silêncio. Não está sozinho/a. Não vamos julgar ninguém, apenas ouvir e partilhar
E finalmente deixo 3 notas de autor:
- No podcast, por razões de opção quanto aos conteúdos, ou seja, por razões práticas, só divulgamos as histórias dos sobreviventes, dos que puseram fim ao ciclo de violência, para que inspirem outros a fazê-lo. Em contrapartida, neste blog podemos contar a sua história mesmo que ainda esteja no processo
- Compreendemos a delicadeza deste assunto e os perigos que representa falar sobre ele por isso respeitamos o seu anonimato e se preferir pode alterar nomes e locais. Todos compreendem.
- Para contar a sua história pode usar o email tematicci@sapo.pt ou deixar uma mensagem neste post com um contacto. Pode optar por escrever a sua história ou gravá-la. Reservamo-nos o direito de fazer pequenas alterações nos textos ou cortes nas gravações, comprometendo-nos a não adulterar conteúdos. Ao enviar-nos o seu material está a aceitar as nossas condições e consentir a publicação.
14 de ago. de 2020
envolta na própria teia
Olho para mim e vejo uma rede tecida de palavras.
Leio fios de palavras em que me foco aleatoriamente. Reconheço a minha escrita.
Por fim percebo que estou presa numa história que eu própria criei. Com o tempo incorporei uma das personagens e percebo que só me liberto se encontrar um saída a partir da própria narrativa, uma ponte para uma realidade onde me encontre a mim, deixando para trás a personagem. Lembro-me de Pessoa e temo que tenha razão, que no fim a mascara esteja colada à cara !?
Eu criei as personagens, dei-lhes vida. Dei-lhes qualidades e defeitos, dei-lhes características e idiossincrasias, dei-lhes medos, dei-lhes pavores, dei-lhes coragens. Dei-lhes sombras, dei-lhes luz. Dei-lhes responsabilidades, dei-lhes culpas e desculpas. Dei-lhes vida.
Quando quis fechar a história não consegui. Eu estava dentro dela e dentro dela me fechava a mim.
Agora estou condenada a escrever caminhos que possa percorrer em direcção a um horizonte novo, do lado de fora. se soube criar a história tenho agora que saber criar a saída, a ponte, a fuga. uma vez lá fora prometo que a fecho.




