17 de jul. de 2023

Poio

O som da água abafa o barulho dos meus pensamentos. De pedra em pedra correm águas em cascatas de beleza milenar, imparáveis. O paraíso sempre aqui esteve e eu só raramente venho ao encontro dele. A minha rteconciliação com os seres humanos passa por aqui, por estar longe deles. Mas aqui também oiço farrapos de frases cortantes que se enterram na carne viva, sem proteção e ferem, ... mais ainda. Esta natureza está cheia de mensagens para a vida, mensagens sobre esforço e recompensa, sobre beleza, sobre serenidade. Cruzo-me com vidas numa mesma busca, que se incomodam com a minha presença tal como eu me incomodo com a delas. No entanto a partir delas começo um enredo que me salva do meu próprio argumento:
Carlos e José optaram por, pelo menos este fim-de-semana, não lutar mais contra o preconceit, tirar a máscara e procurar a pureza das pedras. Carlos preparou-se com uma t-shirt, uns chinelos, os óculos escuros, uma toalha de praia, um sabonete biodegradável e a escova de dentes (tudo de marca da moda) e enfiou tudo na mochila Calvin Klein de última coleção. Sentou-se na cozinha. Comeu uns cereais de frutos silvestres enquanto esperava por José. José, sempre desleixado e desorganizado ainda mandava o último email antes de se preocupar com o que haveria de levar para o paraíso.
Foi Marco, um arquiteto lindo, que conheceram no Bairro Alto, que lhes falou daquelas cascatas onde morava a paz. Ofereceu-lhes uma cerveja artesanal para meter conversa. A ideia de paz, paraíso e pureza era tão atraente que acabaram os 4 a conversar até às 4 da manhã. Entretanto chegara o namorado, o Ivo que depois do concerto em Belém se juntou a eles. Depois das triviais conversas sobre o que fazes, onde vives, que bares gostas e todas as questões que dão inicio a uma conversa entre estranhos acabaram finalmente por entrar pelos campos mais filosóficos das inquietações de cada um. José dizia estar cansado e queria porque queria encontrar um paraíso, qualquer um onde pudesse parar e finalmente respirar sem dor no peito. Carlos, sereno e de bem com a vida, tinha ainda assim os seus momentos de tristeza. O que realemente o preocupava era a inquietação de José. Se o paraíso existisse ia para lá com ele, queria vê-lo voltar a respirar. Ivo e Marco ouviram-nos com atenção e chegou um. omento em que trocaram um olhar inquiridor entre si. Ivo acenou quase impercetivelmente em jeito de consentimento. Com a aprovação de Ivo, Marco revelou-lhes então o seu paraíso, aquele que não partilhavam com ninguem mas que - Oh Deus! Porquê? - partilhavam agora com Carlos e José. É no Poio.
Finalmente José fechou o computador, enfiou meia dúzia de coisas inúteis na mochila, pegou no mapa que Ivo desenhara e foram.
O meu paraíso e o deles ocupam o mesmo espaço, mas para ser um paraíso não podemos estar todos. Carlos e José lançaram-me um sorriso silencioso e apaziguador de quem tem pena de partir mas que entende a minha tristeza e assim adiam o paraíso deles.
Eu fico finalmente só. Os meus pensamentos estavam cada vez mais ensurdecedores, tinha que os calar. Obrigada Carlos e José por me terem deixado ficar.
O forte som das águas em queda abafou o barulho dos meus pensamentos. Finalmente o paraíso, finalmente o Poio.


Poio, 2006

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