O som da água abafa o barulho dos meus pensamentos. De pedra em pedra correm
águas em cascatas de beleza milenar, imparáveis. O paraíso sempre aqui esteve e
eu só raramente venho ao encontro dele. A minha rteconciliação com os seres
humanos passa por aqui, por estar longe deles. Mas aqui também oiço farrapos de
frases cortantes que se enterram na carne viva, sem proteção e ferem, ... mais
ainda. Esta natureza está cheia de mensagens para a vida, mensagens sobre
esforço e recompensa, sobre beleza, sobre serenidade. Cruzo-me com vidas numa
mesma busca, que se incomodam com a minha presença tal como eu me incomodo com a
delas. No entanto a partir delas começo um enredo que me salva do meu próprio
argumento:
Carlos e José optaram por, pelo menos este fim-de-semana, não lutar mais contra
o preconceit, tirar a máscara e procurar a pureza das pedras. Carlos preparou-se
com uma t-shirt, uns chinelos, os óculos escuros, uma toalha de praia, um
sabonete biodegradável e a escova de dentes (tudo de marca da moda) e enfiou
tudo na mochila Calvin Klein de última coleção. Sentou-se na cozinha. Comeu uns
cereais de frutos silvestres enquanto esperava por José. José, sempre desleixado
e desorganizado ainda mandava o último email antes de se preocupar com o que
haveria de levar para o paraíso.
Foi Marco, um arquiteto lindo, que conheceram no Bairro Alto, que lhes falou
daquelas cascatas onde morava a paz. Ofereceu-lhes uma cerveja artesanal para
meter conversa. A ideia de paz, paraíso e pureza era tão atraente que acabaram
os 4 a conversar até às 4 da manhã. Entretanto chegara o namorado, o Ivo que
depois do concerto em Belém se juntou a eles. Depois das triviais conversas
sobre o que fazes, onde vives, que bares gostas e todas as questões que dão
inicio a uma conversa entre estranhos acabaram finalmente por entrar pelos
campos mais filosóficos das inquietações de cada um. José dizia estar cansado e
queria porque queria encontrar um paraíso, qualquer um onde pudesse parar e
finalmente respirar sem dor no peito. Carlos, sereno e de bem com a vida, tinha
ainda assim os seus momentos de tristeza. O que realemente o preocupava era a
inquietação de José. Se o paraíso existisse ia para lá com ele, queria vê-lo
voltar a respirar. Ivo e Marco ouviram-nos com atenção e chegou um. omento em
que trocaram um olhar inquiridor entre si. Ivo acenou quase impercetivelmente em
jeito de consentimento. Com a aprovação de Ivo, Marco revelou-lhes então o seu
paraíso, aquele que não partilhavam com ninguem mas que - Oh Deus! Porquê? -
partilhavam agora com Carlos e José. É no Poio.
Finalmente José fechou o computador, enfiou meia dúzia de coisas inúteis na
mochila, pegou no mapa que Ivo desenhara e foram.
O meu paraíso e o deles ocupam o mesmo espaço, mas para ser um paraíso não
podemos estar todos. Carlos e José lançaram-me um sorriso silencioso e
apaziguador de quem tem pena de partir mas que entende a minha tristeza e assim
adiam o paraíso deles.
Eu fico finalmente só. Os meus pensamentos estavam cada vez mais ensurdecedores,
tinha que os calar. Obrigada Carlos e José por me terem deixado ficar.
O forte som das águas em queda abafou o barulho dos meus pensamentos. Finalmente
o paraíso, finalmente o Poio.
Poio, 2006

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