Esse mero vislumbre do que poderia ter sido deixa muitas vezes marcas tão profundas e atordoantes que nunca mais nos endireitamos.
Porque as histórias são tantas passei a estar mais atenta e hoje reconto ( e talvez acrescente ponto!...) a uma que me contou a minha tia F..
Maria vivia "lá" no lar. Algo nela a distinguia dos outros. Sorria mas tinha um olhar triste, ao contrário dos outros não era apática mas silenciosa, contemplativa, não era amarga mas suave, não era revoltada mas conformada. Nunca sofria com as esperas das visitas porque já não tinha por quem esperar, vivia sozinha no mundo.
Contudo trazia sempre consigo um objecto que nos intrigava pela forma zelosa como o guardava e pelo amor com que se perdia a olhá-lo.
F., sempre bem disposta e brincalhona, gozava de uma espécie de permissão especial para dizer e perguntar tudo o que queria sem que lhe levassem a mal. Um dia não resistiu e, no fim de um almoço, numa hora de sesta lânguida e quente, perguntou-lhe curiosa mas para passar tempo e despertar conversa:
- Maria, que anel é esse que guarda com tanto
carinho?
Maria levantou o olhar triste para F., ensabocada com o inesperado da pergunta. Tinha 91 anos, feitos em Janeiro, trazia aquele anel consigo há mais de 70 anos e nunca ninguém lhe fizera esta pergunta.
Soltou um sorriso triste e começou a contar a história daquele anel que se transformara também na única história relevante da sua vida.
Parecia que aquela pergunta a fizera saltar daquele silêncio contemplativo num golpe, e agora falava numa ânsia de arrancar do peito aquela história que a sufocava
Começou: É um anel de noivado. Contou que tinha 19 anos quando aquele rapaz a incomodou com o olhar à saída da igreja, como ele a seguiu para casa, como ela se enfureceu com os seus avanços, como ele nunca desistiu apesar de longos meses de rejeição, como o seu coração foi amolecendo até explodir num enamoramento que nem sabia descrever e que lhe tirava a paz, como a mãe a avisou da maldade que os rapazes tinham, como o pai se opusera - como era de praxe, e como finalmente chegara o namoro autorizado à janela, a ida ao baile sob a supervisão da mãe e o beijo roubado na sacristia ao entrar para a catequese que dava antes da missa ao domingo.
O amor cresceu e a vontade de constituir família (livre do jugo do pai !). Mas era preciso arranjar trabalho e ganhar um dinheirinho digno para sustentar a Maria e os filhos que Deus quisesse que tivessem juntos.
Pediu-a em casamento e ofereceu-lhe aquele anel, singelo mas belo, que meteu no dedo para nunca mais tirar.
O seu amor partiu para a França e nunca mais voltou.
Maria ficou, esperou, chorou, desesperou, chorou, ficou solteirona, a um canto, sem filhos; cuidou de seus pais e silenciou a saudade e o sofrimento, limitou-se a contemplar a vida - dos outros - e aquele anel que lhe prometera uma felicidade cuja brisa ainda lhe tocou os lábios naquele beijo roubado na sacristia, mas que lhe falhou, passou ao lado, rumo a França.
Calou-se. Regressou ao silêncio, à contemplação. No dedo continuou aquele anel que acariciou e que nunca abandonou. Quando morreu levou-o com ela ( quem sabe, para França!).
Parecia que aquela pergunta a fizera saltar daquele silêncio contemplativo num golpe, e agora falava numa ânsia de arrancar do peito aquela história que a sufocava
Começou: É um anel de noivado. Contou que tinha 19 anos quando aquele rapaz a incomodou com o olhar à saída da igreja, como ele a seguiu para casa, como ela se enfureceu com os seus avanços, como ele nunca desistiu apesar de longos meses de rejeição, como o seu coração foi amolecendo até explodir num enamoramento que nem sabia descrever e que lhe tirava a paz, como a mãe a avisou da maldade que os rapazes tinham, como o pai se opusera - como era de praxe, e como finalmente chegara o namoro autorizado à janela, a ida ao baile sob a supervisão da mãe e o beijo roubado na sacristia ao entrar para a catequese que dava antes da missa ao domingo.
O amor cresceu e a vontade de constituir família (livre do jugo do pai !). Mas era preciso arranjar trabalho e ganhar um dinheirinho digno para sustentar a Maria e os filhos que Deus quisesse que tivessem juntos.
Pediu-a em casamento e ofereceu-lhe aquele anel, singelo mas belo, que meteu no dedo para nunca mais tirar.
O seu amor partiu para a França e nunca mais voltou.
Maria ficou, esperou, chorou, desesperou, chorou, ficou solteirona, a um canto, sem filhos; cuidou de seus pais e silenciou a saudade e o sofrimento, limitou-se a contemplar a vida - dos outros - e aquele anel que lhe prometera uma felicidade cuja brisa ainda lhe tocou os lábios naquele beijo roubado na sacristia, mas que lhe falhou, passou ao lado, rumo a França.
Calou-se. Regressou ao silêncio, à contemplação. No dedo continuou aquele anel que acariciou e que nunca abandonou. Quando morreu levou-o com ela ( quem sabe, para França!).
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