13 de jun. de 2020

Sentada na Gruta

Parece que se estivesse sentada no fundo de uma gruta ninguém me iria lá buscar. Porquê?
Estou sentada no fundo de uma gruta e ninguém me vem buscar.

Mas não importa que não me venham buscar. No fundo da gruta sentada é onde quero estar.


Cansada de pessoas

Estou cansada de Pessoas

Elas sugam-me a vida, a energia que já nem tenho em abundância, e é como se não me vissem. Sou invisível.
Parece que para elas eu sou apenas uma rocha onde se sentam e descansam, onde choram, onde meditam, onde recuperam energia.

Mas eu não sou uma rocha. Sou uma pessoa enrolada e camuflada para que os outros tenham uma rocha onde se encostar.


imagem de Filippo Ioco

29 de mai. de 2020

ODEIO HISTÓRIAS DE AMOR - UMA VEZ TIVE UM NAMORADO EM VERRIDE

Esta história cruzou-se comigo num pequeno restaurante tradicional da baixa da cidade de Coimbra - o Beirāo. Chegou a mim por acaso e porque o nosso ímpeto “voyeurista” não nos permite ausentarmo-nos das conversas alheias.
Como “amo Montemor” aquela frase foi a espoleta da minha atenção
- uma vez tive um namorado em Verride...

Já tinha percebido que aquelas duas mulheres que ali conversavam tinham uma qualquer ligação a Montemor mas agora eu queria perceber melhor até onde ela ia.
Vim a perceber que a protagonista tem hoje 93 anos. Levantei o olhar e não pude deixar de me espantar. Alta, escorreita, lúcida, aparentava pelo menos menos 15 anos.
Continuou:
- gostava muito dele mas até desabafei com a minha mãe “o homem com quem casar há-de ser limpinho ( interessante esta característica, pensei eu!) e não pode ser ciumento”. Ora ele era muito ciumento e por isso deixei-o ( talvez também não fosse limpinho, pensei novamente!). Sei que casou e tiveram um filho. Eu cheguei a conhecê-la. Já eu felizmente encontrei um homem limpinho e que não tinha essa porcaria do ciúme. Eu pude sempre fazer o que queria e ele também. Tivemos filhos e uma boa vida.
Há três anos a minha neta foi estudar para as Caldas da Rainha e eu ia levá-la todas as segundas-feiras. Ela tinha sempre combinado com mais duas ou três pessoas para eu apanhar nas bombas de gasolina de Montemor e levar para as Caldas. Eles chamam-lhe ... acho que é “carsharing”!

Uma dessas manhãs de segunda-feira apanhámos um rapaz cujas feições me despertaram memórias muito antigos. Ele fazia-me lembrar a mulher com quem o meu namorado de Verride casou.Perguntei-lha porque ia para as Caldas. Ia visitar a avó. Perguntei-lhe como a avó se chamava. Acertei na "mouche"!. Ele quis sabier como sabia eu o nome da avó e eu contei-lhe um resumo da história. Ficou radiante e acabou por fazer questão que eu reencontrasse o avô. Concordei.
Uma curiosidade despertou no meu coração e 3 dias depois deu-se o reencontro. Ele não me reconheceu. Estava velho e amargo e quando o neto lhe disse quem eu era a única observação que conseguiu fazer foi "mas tu tinhas o cabelo comprido".
Claro que tinha. Naquele tempo não nos deixavam cortar o cabelo, portanto só o fiz quando tive liberdade para isso e desde aí uso sempre o cabelo curto. Então respondi, sêca: "Agora este é o meu cabelo", como quem diz, se não gostas, azar o teu!
Dois dedos de conversa trivial e nunca mais nos vimos. O que imaginei que poderia ser um círculo que se fechava afinal foi um final sensaborão, uma desilusão, talvez porque eu fora feliz. A imagem romantizada daquele amor morreu ali, de forma inglória.

Nota: 
Esta história é a antítese da história de amor que eu odeio porque, acabando mal, do meu ponto de vista acabou bem, porque o que eu odeio nas histórias de amor que só se concretizam tarde na vida é o tempo que fizeram perder e a dor que provocaram. A alegria que fazem renascer é boa mas não substitui nem apaga a tristeza passada.
Nesta história afinal não houve tristeza nem sofrimento e muito menos tempo perdido mas escrevo-a porque não a odeio e porque me ajuda a ilustrar porque odeio as outras, as que acabam "bem".

In: Restaurante Beirão, Baixa de Coimbra, 22/1/2020 

ODEIO HISTÓRIAS DE AMOR

Criei esta série porque várias são as histórias de amor que me encontram e pedem para serem escritas. O que estas histórias em particular têm em comum não é só e obviamente o amor mas o sabor amargo que me deixam ao ouvi-las. Todas contaram um feliz e (nem sempre) empolgante reencontro que fatalmente só existe porque houve antes um infeliz desencontro. Este tema comum revolta-me. Se por um lado fico feliz pelo encantamento do reencontro duma pessoa amada, pelo rejuvenescimento que provoca e empolgamento revigorante que desperta, por outro lado deixa evidente a tristeza da história passada.
Claro que cada história tem as suas especificidades porque cada pessoa é especial mas o que vejo sempre são sinais de cobardia, de intromissão de terceiros, de preconceitos, de educações rígidas e hipócritas, de espartilhos sociais que resultam em desilusão, tristeza e sofrimento silenciado pela necessidade de seguir em frente. Eu vejo perda de tempo na vida e para mim perder tempo na vida é um pecado capital porque ela é só uma uma e por muito longa que seja parece-nos sempre curta, insuficiente para nos realizarmos em tantos campos, sendo um deles, e talvez o mais importante, o amor.
Claro que todos os intervenientes sabem que nada lhes garante que se outro tivesse sido o caminho teriam sido mais felizes. Normalmente até lhes parece que não. Mas isso não me importa porque só o saberíamos se o desencontro não se tivesse dado.

A primeira história desta série chegou a mim antes de eu saber que seriam uma série. É até agora a mais triste, sem um final feliz, pelo menos que se conheça neste momento. Podem lê-la aqui. Chama-se “Morreu de amor” As outras estão identificadas.

Submarino ao fundo - marcador: João 1 - Diogo 1

Na sequência dos submarinos ao fundo (sonhos afundados) devo dizer que o primeiro ponto foi marcado por mim.

Dissertava o Diogo sobre o quanto seria bom termos uma auto caravana para andarmos por aí, livres como hippies dos anos 60, tesos mas felizes a viver com pouco e a curtir à grande.

Reajo de imediato e começo a disparar:
Para mim a compra de uma auto caravana não passa de um sonho batido duma classe média a quem a televisão vendeu um estereótipo de felicidade que não passa a maioria das vezes de um grande pesadelo.
E explico a minha ideia:
uma auto caravana custa cerca de 35.000 €. Para a comprares tens duas opções: ou gastas um dinheiro que te custou a ganhar (ou a herdar) ou se fores mesmo classe média típica - leia-se tesa - tens que fazer um crédito a 2 milhões e setecentos mil meses para a prestação ser mais suave mas sem nunca teres um encargo inferior a cerca de 250/300 € mês.
Como tens mais um encargo reduzes as possibilidades de ires passear, porque compraste uma auto caravana para passear!
Cada vez que sais é uma trabalheira limpar, armazenar comida, preparar roupas etc
os sítios onde se podem estacionar auto caravanas são cada vez menos e a probabilidade é que tenhas que estacionar longe e tenhas que andar muito ou transportar também outros meio qualquer de locomoção
Agora imagina durante quantos anos podes viajar e ficar alojado onde te apetecer até gastares 35000 €
E se quiseres mesmo andar de auto caravana aluga uma. É caro mas vale a pena para quem não quer ter os encargos da manutenção, impostos e estacionamento.

O Diogo acabou por concordar entristecido por ver afundar o seu submarino!

PostScriptum



Ok, um diário da Costa Rica - San Jose

27 de Março de 2019



Primeiro acordar em San Jose. Deitei-me cedo, por volta das 20.30/21 h, completamente exausta. Sentia-me desfalecer e mal conseguia falar. Chegara ao hotel Fleur de Lys depois de um vôo de 11 h 50 m, vinda de Zurique, confirmando a pontualidade relojoeira dos suíços. O vôo da Edelweiss durou exactamente 11 horas e 50 minutos, como previsto, pelo que chegámos exactamente às 18h 50m como previsto ! 
Da Suiça trago pequenas recordações: a coordenação perfeita do shuttle, grátis, para o hotel; as ruas incrivelmente limpas ( nem beatas no chão junto aos cinzeiros !! ); a organização espacial rectilínea; os carros grandes e brilhantes; as pessoas bem vestidas com roupas visivelmente caras mas cinzentonas e standardizadas; os espaços para fumadores abundantes, bonitos e limpos, patrocinados por marcas de tabaco; e claro a pontualidade chata !
Chegada ao aeroporto Juan Santamaria tudo correu bem apesar do controlo policial e aduaneiro a que, como europeia, não estou habituada.
Na rua um vento fresco apesar dos 27 graus e um caos de taxistas e pessoas.
Era suposto ter um taxista do hotel à minha espera, o Sr Julio Granados, mas com o cansaço e a impaciência não o encontrei. Entretanto vários taxistas oficiais ( cor de laranja ) e oficiosos ( vermelhos ) me assediaram. Acabei por ceder a um bastante pro-activo, mesmo sabendo que estava a ser enganada. 


Continuo este texto nove meses depois do regresso. Aproveito aquelas linhas mas já não tenho a memória fresca dos acontecimentos e por isso não o posso continuar como diário.

Continuo como um conto, com base nas sensações que me ficaram gravadas na pele mais que na memória.
A esta distancia dou muitas vezes por mim a perguntar-me porquê, porque é que fui àquela viagem, que me trouxe ou deixou ela.
Sinceramente nem sempre está claro. Não consigo acreditar que foi apenas um capricho e que não me acrescentou nada.
Claro, acredito que todas as viagens somam qualquer coisa ao nosso entendimento sobre a vida, sobre os outros que afinal são como nós em qualquer ponto do mundo. Mas esta soma não me chega. Gostava de sentir que foi uma multiplicação, um crescimento interior mais que somatório. 

Sobre esta viagem só algumas reflexões :

Vivemos num mundo ilusório, em que não existe uma realidades mas várias versões dela ou do que ela poderia ser, e nós adoptamos a que mais nos agrada.

Antes de viajar li sobre como a Costa Rica já foi considerada várias vezes o pais mais feliz do mundo. Eles próprios dizem que não é verdade. Sim, é verdade que não são muito dados a stress e que gozam a sua natureza de forma descomplicada. Acredito que não há problema que resista a um mergulho numa bela cascata de água fresca no meio duma floresta viva e cheia de energia mas daí a serem detentores do segredo da felicidade, não me pareceu.

Também li sobre a forma como tratavam os animais - que adoram os animais, que não há animais abandonados, que não há circos com animais, que não há jardins zoológicos. Tudo isto me atraiu especialmente, e principalmente a questão dos circos e dos zoológicos. Mas... não é bem assim. Realmente respeitam a natureza e especialmente os animais mas existem ainda jardins zoológicos e veem- se animais a deambular que se não estão abandonados também não estão muito melhor. É verdade que tem uma grande tolerância à vida selvagem e que vivem com ela em boa harmonia.

A ideia de paraíso na terra também não é totalmente verdade porque muitos dos que procuram o paraíso na verdade acabam por o destruir. A imagem mais impressionante (que muito incomoda os guias mais conscientes - é verdade que eles vivem do turismo mas têm consciência que ao nível que estava nessa altura estava a destruir o paraíso que o potenciou. O mais famoso parque natural - o Manuel Antonio - recebia na altura cerca de 2000 pessoas por dia. Apesar da grande extensão do parque a sensação era de estar sempre demasiado cheio. Os animais não tem paz. Animais selvagens já convivem com as pessoas com indiferença. Os macacos, os cappuccino, até exploram aquela convivência de forma inteligente embora anti-natural - pedem cómoda, fazem poses para fotos à espera de recompensas e até fazem esperas nos caminhos cientes de que os turistas vão achar piada. Claro que no meio de tanta existem sempre muitas pessoas que não respeitam o suposto estado selvagem e fazem as maiores barbaridades para poder tirar uma foto ou uma selfie
A belas praias desertas são alvo de predadores imobiliários que rapidamente transformam a beleza natural num projecto imobiliário para americano ver. As montanhas são retalhadas em resorts pontilhado com grandes vivendas do tipo americano num contraste chocante com a arquitectura do país. A agricultura autóctone começa a ser substuida por explorações intensivas de produtos para satisfazer um mercado mundial de consumista ávidos. O maior atentado que vi na zona sul foram kilómetros infindáveis de plantações de óleo de palma para as quais as populações olham com tristeza pois se por um lado representam trabalho e algum rendimento (que no entanto é apenas suficiente para sobreviverem e se manterem na pobreza) por outro representam uma espécie de desertificação uma vez que aquele ambiente de monocultura torna a zona quase estéril. Ali não nasce mais nada nem vivem animais - excepto os abutres !

To be continued...



24 de jan. de 2020

Cativo da Liberdade

^...ser cativo da liberdade^

Ouvi esta frase da boca do Fernando Alves da TSF no seu extraordinário programa Sinais a propósito de alguém que deixara uma vida de sucesso para ser pastor em algum lugar recôndito duma serra portuguesa.

Adorei a aparente contradição 
Penso que quando defendemos uma ideia, uma forma de viver ou encarar a vida, muitas vezes nos tornamos cativos dela.
A liberdade é uma tirana. Vivê-la em pleno nem sempre é  fácil mas quando a provamos tornamo-nos cativos dela, contra tudo e todos.

Fui tão sensível à frase porque a liberdade é um tema que me fascina. Sempre defendo que só dela podemos ser cativos porque esse cativeiro é  voluntário, livre, tão livre que só se constitui em cativo quem é livre de o fazer (e desfazer).

Eu tendo a complicar este tema e por isso fascina-me a simplicidade desta frase que tudo resume.

22 de ago. de 2019

Submarinos ao fundo

Eu e o Diogo vivemos de várias cumplicidades. Há uma que ora nos irrita ora nos diverte, especialmente nos dias em que acordamos muito bem dispostos os dois - vejam a improbabilidade de isto acontecer muitas vezes ! - e tudo parece ter graça, até a destruição de sonhos !
Hoje é um dia divertido. Eu afundei-lhe um sonho como se fosse um submarino e ele não perdeu a oportunidade para fazer o mesmo, numa batalha naval infantil.
 Eu tenho uma forma romântica de ver a vida, uma forma que paira ao nível da ilusão, do etéreo. Cultivo essa visão porque sou mais feliz assim do que sou se encarar o mundo de forma realista - sendo que a realidade não está provado que exista ou possa mesmo existir, não passa de um conceito que já inspirou muitas reflexões filosóficas que, por o serem, não chegaram a nenhuma conclusão.
Já o Diogo é objectivo, não se deixa enganar com ilusões e vive aquilo que acredita ser a realidade. Parece que não é infeliz com isso. Talvez porque não crie grandes expectativas ? É uma possibilidade.

Passo a exemplificar como atiramos submarinos ao fundo:

Numa tasca/restaurante em Vila Real de Santo António - o Cuca, onde se come o melhor carapau frito do mundo (só igualado pelo de Aveiro no restaurante Telheiro), sentamo-nos num ambiente quente, húmido, com um cheiro intenso a peixe e rodeados de famílias espanholas que vociferam alegremente as suas conversas despreocupadas e triviais. Na interior uma foto de parede inteira mostra dois pequenos barcos tradicionais de pesca que, pelo nome, parecem pertencer a esta família.
Acho maravilhoso saber que pescam o peixe que vendem e comparo este restaurante/tasca com um outro na figueira da Foz, onde comemos várias vezes a melhor sardinha assada do mundo.
Esta minha romantização das circunstâncias em que comemos peixe é rapidamente abatida por uma visão realista que o Diogo, quase com pena, partilha comigo:
- João, a sardinha não pode ser pescada com aqueles barquitos. Além disso, o rapaz da Figueira não é pescador como tu pensas. Já trabalhou num barco de pesca e agora é um "janado" que não faz nada e a mãe trabalha que nem uma cadela a assar peixe para o sustentar.

Faço uma expressão de enfado embora divertida com as nossas diferenças e respondo:
- Porra, no fundo eu sei isso tudo mas guardo na gaveta da objectividade e torno o mundo mais belo romantizando-o. Que mal há nisso?


31 de mar. de 2019

Ok, um diário da Costa Rica - A superação do medo

26 de Março de 2019

Impõe-se escrever um diário. Esta necessidade surge não porque tivesse planeado escrevê-lo ou porque tenha que ser assim mas porque o ócio desperta estas vontades. Felizmente, pela primeira vez em muito tempo ( será já o primeiro efeito desta viagem!? ) prefiro a escrita em detrimento do jogo de paciência no IPad.

Então, começando pelo princípio:
Há muito que se formava no meu espirito um desconforto com a minha vida ( boa! ), as minhas rotinas, as minhas relações de afecto, as minhas paixões, as minhas frustrações, o meu trabalho, a minha vida sem o Diogo, a minha dormência mental sem leitura, sem informação, sem interesses e sem sonhos. Uma dormência que me deixa desconfortável. Eu sei que ainda sou eu mas estava literalmente fora de mim, em espera.
Fui começando a anunciar que ia fazer retiros sozinha, sem contactos, por uns dias. Mas, quando chegava a hora, não me apetecia. A preguiça apodera-se do dormente com muita força e desenvolve-se uma grande capacidade para dar justificações para continuar dormente.
Por outro lado sempre tive curiosidade sobre a Costa Rica - porque dizem ser o paraíso, é um pais muitas vezes bem colocado no ranking dos mais felizes do mundo (!?), cujo lema de vida é algo indefinível para nós: PURA VIDA.


Nota: esta entrada do diário acabou aqui. Continuo ou concluo hoje, dia 31/3/2019, em mais um momento de ócio.

Ate chegar aqui houve muitas hesitações, muitos empurrões também, quer da parte do Diogo quer de amigos, mas principalmente da Carina, que Deus a abençoe. A vontade começou a avolumar-se e num dia de tristeza marquei a viagem e pronto, estava no ponto de não retorno. Agora era a hora de ter medo mas fazer na mesma.
Havia vozes a dizer vai e outras a dizer não vás. Havia preocupações genuínas e medos pessoais transpostos para mim. Mas eu estava decidida. Neste caminho até aqui eu, consciente ou inconscientemente, fui queimando pontos de fuga, pontes de retorno. 
Disse à mãe, que foi um momento fulcral. Procurei o apoio do Diogo, que é tāo importante para mim. Preparei a Nandita e cozinhei com ela planos da pólvora ( em segredo não abosluto ! ), pedi ajuda ao Neca para não ter que gastar todas as minhas férias. Claro que a primeira reacção dele foi a que eu esperava - disse que não e eu respeitei porque o conheço. Sabia que ele ia recusar, por preocupação por mim mas disfarçada de brio profissional. Com algumas visitas, muita insistência e uma cunha da Ana ele lá cedeu. Eu não tinha dúvida que ele passaria o atestado se eu fizesse uma das minhas e não tivesse outra saída. Mas a nossa relação é assim, ele é um excelente amigo que eu adoro até e principalmente pelas suas idiossincrasias.
Preparei-me financeiramente, comprei dólares ao pai da Carina, criei uma conta no revolut e mandei vir um cartão, paguei os cartões de crédito, enfim, paulatinamente estava a preparar-me. Faltava acertar com a Guida, que se prontificou a cuidar dos gatinhos. Ela é uma ajuda preciosa e sem ela seria muito mais difícil. Comprei um smart phone à mãe e levei dias a ensiná-la a usar o whatsapp. A minha mãe é maravilhosa, uma inspiração para mim e bastante responsável por este meu espírito livre. Aprendeu rápido e com determinação. Quis fazer segredo da minha viagem, chamou-me doida muitas vezes, pediu-me para não ir, recorreu ao Diogo mas no final confessou que estava orgulhosa e que só se preocupa porque os outros não me entendem. Tenho orgulho da minha mãe, ela é um pilar extraordinário na minha vida, a qual não imagino sem ela, que Deus a conserve com saúde e que quando tenha que ir que seja sem sofrimento. 

Depois foi marcar os hotéis e partir no mesmo dia em que o Diogo regressava a Munique - 25/3/2019 - e depois de um eanme das finanças a que não podia faltar (?)

La fui, na Swiss airlines rumo a Zurique para fazer escala e partir dia 26/3 para a minha aventura, para a minha viagem de superação pessoal - o tipo de viagem que só os bem alimentados fazem ( parafraseando Cleópatra, segundo Maria Isabel Lucas, minha mãe " só os bens alimentados podem gozar a vida)

16 de dez. de 2018

A tangência dos quases

Tenho passado por várias histórias ao longo da vida que me fazem pensar como algo que quase acontece faz com que a felicidade ( e por vezes o sofrimento também!...) nos passem ao lado numa tangente que nos toca mas foge, deixando uma promessa de ser o que nunca será.
Esse mero vislumbre do que poderia ter sido deixa muitas vezes marcas tão profundas e atordoantes que nunca mais nos endireitamos.
Porque as histórias são tantas passei a estar mais atenta e hoje reconto ( e talvez acrescente ponto!...) a uma que me contou a minha tia F..
Maria vivia "lá" no lar. Algo nela a distinguia dos outros. Sorria mas tinha um olhar triste, ao contrário dos outros não era apática mas silenciosa, contemplativa, não era amarga mas suave, não era revoltada mas conformada. Nunca sofria com as esperas das visitas porque já não tinha por quem esperar, vivia sozinha no mundo.
Contudo trazia sempre consigo um objecto que nos intrigava pela forma zelosa como o guardava e pelo amor com que se perdia a olhá-lo.
F., sempre bem disposta e brincalhona, gozava de uma espécie de permissão especial para dizer e perguntar tudo o que queria sem que lhe levassem a mal. Um dia não resistiu e, no fim de um almoço, numa hora de sesta lânguida e quente, perguntou-lhe curiosa mas para passar tempo e despertar conversa:
- Maria, que anel é esse que guarda com tanto
carinho?
Maria levantou o olhar triste para F., ensabocada com o inesperado da pergunta. Tinha 91 anos, feitos em Janeiro, trazia aquele anel consigo há mais de 70 anos e nunca ninguém lhe fizera esta pergunta.
Soltou um sorriso triste e começou a contar a história daquele anel que se transformara também na única história relevante da sua vida.
Parecia que aquela pergunta a fizera saltar daquele silêncio contemplativo num golpe, e agora falava numa ânsia de arrancar do peito aquela história que a sufocava
Começou: É um anel de noivado. Contou que tinha 19 anos quando aquele rapaz a incomodou com o olhar à saída da igreja, como ele a seguiu para casa, como ela se enfureceu com os seus avanços, como ele nunca desistiu apesar de longos meses de rejeição, como o seu coração foi amolecendo até explodir num enamoramento que nem sabia descrever e que lhe tirava a paz, como a mãe a avisou da maldade que os rapazes tinham, como o pai se opusera - como era de praxe, e como finalmente chegara o namoro autorizado à janela, a ida ao baile sob a supervisão da mãe e o beijo roubado na sacristia ao entrar para a catequese que dava antes da missa ao domingo.
O amor cresceu e a vontade de constituir família (livre do jugo do pai !). Mas era preciso arranjar trabalho e ganhar um dinheirinho digno para sustentar a Maria e os filhos que Deus quisesse que tivessem juntos.
Pediu-a em casamento e ofereceu-lhe aquele anel, singelo mas belo, que meteu no dedo para nunca mais tirar.
O seu amor partiu para a França e nunca mais voltou.
Maria ficou, esperou, chorou, desesperou, chorou, ficou solteirona, a um canto, sem filhos; cuidou de seus pais e silenciou a saudade e o sofrimento, limitou-se a contemplar a vida - dos outros - e aquele anel que lhe prometera uma felicidade cuja brisa ainda lhe tocou os lábios naquele beijo roubado na sacristia, mas que lhe falhou, passou ao lado, rumo a França.
Calou-se. Regressou ao silêncio, à contemplação. No dedo continuou aquele anel que acariciou e que nunca abandonou. Quando morreu levou-o com ela ( quem sabe, para França!).











14 de dez. de 2018

Em vão

Toda a minha vida procurei a transparência.
Em vão.
Todos somos actores.
(Todos somos vendedores)

20 de out. de 2018

Procuro o fado

quem dera encontrar o que me arrepiasse na alma o que um fado de Carlos do Carmo me arrepia na pele



5 de mai. de 2018

Mundo invertido





Tenho os órgãos trocados
Tenho dor física na alma 
Dos olhos saem sombras
Da boca saem lágrimas 
Do coração sai fel
Das mãos palavras 
Da garganta novelos
E do pensamento encruzilhadas 



14 de mar. de 2018

Como Ícaro

Não quero sentir culpa, quero acreditar que a não tenho, que a culpa não interessa, mas sinto, sinto culpa de tudo.
O que peço e espero é ter sempre força para as consequências e não estou a sentir essa força. Gostaria de nunca me arrepender do que faço, fiz ou farei e nunca me arrependeria se tivesse a tal força para as consequências. Pesa-me a crença de que a responabilide é sempre minha. Sinto medo de me aproximar demasiado do Sol e, como Ícaro, derreter as asas e estatelar-me no chão, mais uma vez.

Camada rígida


Estou sêca. Se eu conseguisse quebrar a camada rígida que impede a minha alma de se exprimir com certeza que a sangria me deixaria mais livre, com espaço no peito. Sinto um peso cá dentro, um peso na alma, uma torrente presa que ronca, rodopia, tenta saír.

Sobre a linha fronteiriça da insanidade



Só concebo uma forma de sarar feridas, apagá-las.
Sempre cultivei o radicalismo dos impossíveis mas não sabia o verdadeiro significado de impossível. E acho que ainda não aprendi. 
Sofro com o que é impossível mas isso para mim é uma contradição porque se eu aceitasse a impossibilidade eu não sofria. O sofrimento está na esperança de que o impossível não o seja porque se eu aceitasse que o é não sofria. Tudo o que nos faz sofrer é a esperança, essa mesma que nos faz sair do ciclo de sofrimento...
Perguntaram-me hoje se fiz o luto (pelo meu pai). Não sei fazer luto, não sei aceitar perdas. É como se até para a morte houvesse esperança de retorno.
Diz-se que o ser humano vive sem quase tudo, só não vive sem esperança. Concordo. Mas... também morro um pouco sempre que mantenho a esperança porque só tem esperança quem não tem o que ou quem espera ter e a espera sem ter conduz, por força do próprio conceito, ao desespero. O desespero é o fim da linha, a consequência última. O problema é que não morremos inteiros, morremos por partes, numa lepra da alma, que vai soltando as extremidades até ficar um tronco amalgamado....


21 de dez. de 2017

Ainda assim...

Inquieta, ouvia um gemido
Saí de mansinho
Tropecei numa paixão 
Vi um coração dilacerado por palavras doces 
Esmagado pela crueza de um amor que não lhe pertencia
Caminhava perdido por um jardim urbano
Fugia, procurava reencontrar-se

15 de dez. de 2017

Tempo linear

Já não é bom, já não é leve 
É apenas obsessão, é apenas rejeição 
Era apenas preciso libertar as palavras 
Criar espaço para uma nova serenidade 

Hoje vejo que todos as pessoas sofrem, que por trás dos sorrisos, dos risos, das conversas, há um grande enfado. Todos fomos esmagados pelos outros. Até quem nos esmagou foi esmagado. Na realidade não são os outros que nos esmagam mas nós próprios. São as construcções, as projecções dos nossos desejos. Vemos em alguém o que desejávamos que esse alguém fosse. Mas esse alguém não é, e não tem culpa. Esse alguém é apenas o espelho onde projectamos uma construcção nossa que satisfaria o que nós queremos. Assim seria se o outro não fosse uma pessoa real, bem diferente da nossa construcção e que age como é e não como gostaríamos que fosse, e não tem culpa. É por isso que vivemos todos esmagados por nós próprios.

6 de dez. de 2017

Uma mesa com 3 pés


Havia nos olhos negros de J uma promessa quase imperceptível de um futuro triste. Brincava, pulava, na escola adorava a ginástica, os pulos, os mortais na cama elástica. Tinha amigos e quando ria... a gargalhada era contagiante e sincera. Essa gargalhada ainda espreita de vez em quando, com a mesma força contagiante e a mesma sinceridade mas a tristeza cresceu e contaminou o rosto, muito para além do olhar.
O início hoje parece-lhe premonitório. Em alguns momentos volta a sentir aquele aperto na garganta, aquela falta de ar, sufocante, tal como no momento do nascimento em que o cordão que a ligava à vida tinha nos planos não a deixar viver. Não se sabe que poderes se confrontaram mas a primeira batalha foi ganha pela vida quando a arrancaram do ventre materno, aberto, e no derradeiro momento cortaram o cordão umbilical. A mãe corajosa seria sempre o pé mais forte da mesa de tripé em que a vida de J se viria a transformar.
J cresceria sempre apoiada num tripé de relações emocionais muito fortes. Três pessoas seriam sempre o seu suporte - a mãe, o pai e, mais tarde quando perdeu o pai, o marido

Depois da alegria do nascimento de J, apesar da dor e da preocupação, a vida correu feliz. Festas, caçadas, pic-nics, praia, bailes e jantaradas e muitos amigos. Cada momento feliz era gravado em fotografias amadoras que imobilizavam a alegria e prometiam não a deixar morrer. Mas hoje quando J abre a caixa velha de sapatos ou o envelope amarelecido pelo tempo onde a mãe guarda as fotos tiradas quando tinha uma vida, logo a tristeza dos olhos negros invade a imagem e sobrepõem-se sempre à alegria dos momentos que se quiseram preservar.
São raras as vezes em que J concede olhar para trás e suportar a saudade. Umas dezenas, poucas, de fotos resumem quase uma década de vida em África. Depois destas fotos veio a guerra , a independência de Angola, a grande viagem de barco (ou foi de avião?!) e a Metrópole. Estava consumada uma viragem na vida feliz e um novo começo. Com a mudança mais tristeza.

Muito se tem dito e escrito sobre os retornados. Que foi bom terem vindo, que trouxeram uma nova vida a Portugal, que desenvolveram, mas também que vieram ocupar o lugar que pertencia aos de cá, que só roubaram, que tiveram que os sustentar, que foram uns privilegiados, enfim, uma mescla de sentimentos que afinal davam sinal de um mal-estar latente, e por vezes patente, contra os retornados.

J tinha olhos negros, cabelo negro, pele quase negra e uma alma negra, africana, livre e aberta. Era apenas uma criança, de riso sincero e olhos tristes.

Haveria apenas duas constantes na vida de J: o tripé dos sentimentos e a mudança, o retorno para um pais onde nunca tinha estado.

Depois do choque da primeira mudança veio alguma alegria. Inocentemente encantava-se com a casa humilde da avó, que bom ter uma avó!, com o tapete de mato à entrada da porta da cozinha que a avó trouxera de manhã à cabeça embrulhado num panal e onde agora as galinhas depenicavam num cacarejar engraçado, as cabras no "sarrado", as laranjas ali à mão e as tangerinas doces ao alcance do seu braço pequenino e rechunchudo, os novos amigos, a nova escola. Esta escola não se comparava com o colégio de Luanda mas as salas cheiravam bem - aquele cheiro a madeira, cera e giz ficaria para sempre na sua memória de infância. Agora para ir para a escola já não atravessava uma rua movimentada, sempre vigiada pelo olhar atento e libertador do pai e apavorado da mãe, que da varanda torciam para que não se esquecesse de parar, olhar para um lado e para o outro e atravessar sem ser atropelada. Agora percorria livre e sem vigilância uns bons 3 kms de campos floridos, cheios de azedas-bravas que comia alegremente enquanto fazia caretas feias provocadas pelo amargo da seiva fresca daquelas flores amarelas que lhe iluminavam o rosto onde os olhos negros continuavam tristes.
Agora era portuguesa! Tinha amigos brancos! No entanto, a cada momento a sua tez escura, o seu sotaque persistente, as palavras esquisitas que ainda usava, a sagacidade resultante de uma breve passagem por um sistema de ensino mais moderno, denunciavam a verdade: ahhh! És retornada!?!?
Com o passar dos anos o rótulo acabou por esmorecer e só de vezes a tempos alguém pressentia que havia algo de diferente naquela personalidade, naquela forma de ver a vida e acolher os outros, e perguntava quase em jeito de afirmação: é retornada, não é? E voltava tudo, o aperto na garganta, a falta de ar, a viagem, a mudança e o choque. Sim, nasci em África, respondia orgulhosa.

A vida recompôs-se para J. Os pais eram lutadores, a família era harmoniosa. O pai tinha um emprego que lhe fora garantido por ser retornado. Este país que não nos queria acolher sentia-se culpado por termos perdido tudo e de certa forma tentou compensar-nos
A mãe, eterna dona de casa, era o pilar, o equilíbrio; excelente gestora da economia doméstica revelou sempre poderes mágicos de multiplicação dos recursos. O pai, um empreendedor nato, encantava todos os que com ele conviviam. Sensível e amigo, tinha o poder de reunir consensos, amigos, familiares e de ensinar a amar, a ser sensível num mundo retrógrado, de machos, onde um homem não chora. Ele chorava. Era um pai extraordinário e um ser humano encantador.
Eu cresci, ele prosperou, a minha mãe foi novamente feliz.

O caminho não foi fácil e houveram muitos episódios de tristeza e muitos outros de alegria.

J ganhou uma família grande: muitos tios, muitos primos, Natal em família, Páscoa em família, aniversários em família, tudo em família - perfeito!
Desta nova vida fizeram-se mais fotografias mas os negros continuaram a encher as fotos de tristeza.

J cresceu e tornou-se uma adolescente. Boa aluna, alguns amigos, campo e cidade, viagens, animais. Tinha tudo mas dentro dela havia sempre uma tristeza inexplicável que brotava pelos olhos negros.
Havia nela um espírito livre, uma sensação de savana que fora apertada, amarrotada e enfiada à força num espaço pequeno, sem ar. A sensação de estar a sufocar vinha muitas vezes. A sua integração nunca fora total, era sempre estranha, inadaptada, incompreendida. Acompanhou-a sempre a sensação de ser um bicho exótico, que se visita num jardim zoológico mas que não se leva para casa.

Nestes tempos incertos a natureza agiu e fez explodir de paixão o coração jovem de J. Apaixonou-se por P que logo se tornou na vida de J, no ar que ela respirava e que não permitia que o cordão umbilical a voltasse a sufocar. O seu espírito livre e um pouco selvagem revelou-se quando se transformou em Leoa para lutar pelo seu amor, pelo terceiro pilar.
Para os outros P era a pessoa errada na hora errada. Parecia que o destino de J estava linearmente traçado: um curso superior, uma carreira de sucesso e uma vida sem surpresas. Mas ninguém conhecia verdadeiramente J, todos se esqueceram que o seu espírito era livre, que a sua alma era negra, africana e aberta como uma savana, que as barreiras lhe aguçavam o instinto selvagem e que o seu destino era tudo menos linear.

Mais uma vez a tristeza marcou pontos.
J vivia a alegria estonteante da paixão por P mas sofria a tristeza da incompreensão do pai. Da batalha só resultaram feridos. Como em todas as batalhas não houve vencedores.

Na alegria da paixão, da loucura de um novo amor, J descorou os seus outros pilares emocionais. Tomava-os como certos, incontestáveis. Mas a tristeza haveria de voltar em força.

De repente, o pai, o seu pilar mais forte, morreu.
Silêncio 
Escuridão 
Vazio 
Desespero 
Sem ela saber uma parte de J morrera com ele e a mesa ficou desequilibrada, para sempre. Golpe brutal e insuportável.
Perante a morte a tristeza ganha força. Tudo se tornou triste

O tempo não cura, esmorece, ameniza. A felicidade volta. Mas fica um medo de voltar a sentir tamanha dor. Mas com o tempo J também aprendeu que a dor virá e portanto há que disfrutar da felicidade com a maior intensidade possivel enquanto ela não vem.


5 de dez. de 2017

Let Go

A vida deu-me tudo
Só não me deu o que desejei.
Parece-me que não posso exigir mais nada