15 de dez. de 2006

uma boa forma de reutilizar latas

fonte: TreeHugger
design: Cristina Covello (Canadian Design Resource)

4 de dez. de 2006

ROTA MEDIEVAL

São por demais evidentes as razões que fazem de Montemor um aglomerado de cariz medieval. De longe, vigilante e poderoso o velho castelo conserva a grandiosidade que fez dele uma das mais importantes fortalezas do período da reconquista cristã.

Apesar dos seus outros companheiros de atalaia na defesa de Coimbra, Soure, Penela, Lousã, Miranda do Corvo, ou aqui bem perto, Santa Olaya, de todos foi sem dúvida Monte Mayor que encantou e inspirou trovadores.

Ao seu redor, acolhia-se a população, qual filho que busca o aconchego do colo materno. Quando o perigo espreitava, guardavam-se os bens, saltava-se a cerca, procurando-se o refúgio do inimigo que ousava atravessar os verdes campos do Mondego.

Os tempos mudam e, lentamente, o homem sente que a segurança política lhe permite cortar o cordão que o prende ao seu Castelo. Espraia-se pela encosta, construindo as suas habitações, entrecortadas por estreitas e sinuosas vielas.

Quem percorrer estas vielas, respira tradição, história, memória dos antepassados. Como dizia Monsenhor Nunes Pereira, aqui até as pedras falam, é preciso é saber ouvi-las.

Vivificar esses tempos é um sonho que queremos concretizar, transformando Montemor-o-Velho numa vila histórica, convidando o visitante a viajar e a passear na história.

Mais do que justificados estão, pois, os motivos para realizarmos uma série de iniciativas referentes a este período, nomeadamente as feiras, as ceias, os torneios ou feitos de armas, a par de outras recriações teatrais e culturais que espelham o quotidiano de então.

O Castelo situa-se no alto de uma colina, isolado e destacado, com amplas panorâmicas sobre a região envolvente. Trata-se de uma fortaleza de planta irregular, alongada, respeitando a geografia do terreno. Constituído por castelejo, cerca principal, barbacã envolvente, cercado do lado Norte e reduto inferior ligado a este. O castelejo é um reduto feito pelo aproveitamento do espaço angular entre a torre de menagem e a cortina Norte. Classificado como Monumento Nacional, pelo Decreto de 16 de Junho de 1910 (Diário do Governo de 23 de Junho), é uma referência fundamental e de enorme importância para a vila. A ocupação humana deste local é, sem dúvida, bastante recuada devido à sua localização geo-estratégica privilegiada, não sendo de desprezar a existência neste lugar de uma atalaia romana. Da época visigótica há a informação de ter aparecido no castelo uma pedra de ornato bárbaro-popular. Também a passagem muçulmana deixou vestígios, como sejam uma coluna, capitéis e um fragmento de estuque (que deram entrada no Museu Machado de Castro de Coimbra). A primeira referência à fortificação remonta ao séc. IX, embora o alcáçar árabe deva ter origem no século anterior. Nesta altura, o recinto fortificado devia resumir-se a pouco mais que a actual zona do castelejo, na coroa da colina.

O célebre geógrafo árabe Edrisi refere-se a um castelo muito forte chamado Munt Malur, no século XII, altura em que a sua importância é acrescida devido ao processo da Reconquista. Em 990, Almançor tomou o Castelo, reconquistado, em 1006, por Mendo Luz. Em 1088 ou 1095, foi reedificado por Afonso VI de Castela. As partes mais antigas são a base da torre de menagem, onde se empregaram silhares romanos (eventualmente da alta Idade Média), as duas fortes torres junto à Porta do Rosário (poderão ser da época das Infantas), bem como os traçados do castelejo e da cerca principal.

No tempo da formação da nacionalidade, com os Castelos de Miranda, Penela, Soure e Santa Eulália, formava a cintura avançada do sistema defensivo da cidade de Coimbra, constituindo para os mouros o seu maior incómodo nesta região. Com efeito, o castelo mudou várias vezes de mãos, com as consequentes destruições, sendo definitivamente tomado pelas forças de Fernando Magno em 1064, aquando da tomada de Coimbra. Nesta conturbada época o castelo devia ser formado pelo castelejo e pela cerca principal. O recinto intra-muros é enriquecido no século XI com a construção da Igreja de Santa Maria da Alcáçova e, no século XII, do Paço das Infantas, que ficará para sempre ligado ao facto de aí ter sido decidida a morte de Inês de Castro.

A perda da sua importância geo-estratégica fez com que o castelo se fosse paulatinamente degradando. Em 1109, D. Teresa e seu filho, D. Afonso Henriques, teriam ordenando novas reformas no Castelo. Em 1210-11, deu-se a confirmação papal do legado do Castelo de D. Sancho I a sua filha D. Teresa. Nas lutas entre D. Afonso III e D. Sancho II esteve do lado deste. O Infante D. Pedro mandou-o ampliar com uma faixa de muralhas, pela encosta do monte até ao sopé, pelo lado Poente. O príncipe D. Afonso IV tomou-o na rebelião contra D. Dinis. No século XIV, o Castelo deve ter tido uma reforma geral, sendo provavelmente desta época a barbacã e o cerco Norte.

A 15 de Maio de 1875, Damião Luís de Carvalho comprou o cercado Norte (onde está a Capela de S. João) por 16$000 e em 1898 comprou cinco faixas de terreno dentro do castelo, entre a Porta de Nossa Senhora do Rosário e a Igreja de Santa Maria da Alcáçova. No ano de 1877, a Câmara expropriou uma porção de terreno para alargar a avenida (revestida a calçada à portuguesa) acessível ao Cemitério, por 17$985. Neste mesmo ano foi construída a torre do relógio.

Em 1936, realizou-se a reconstrução dos panos de muralha; em 1940, a consolidação e reconstrução de paredes; em 1958, a instalação eléctrica; em 1969, reparação do poço do Abade João e muralhas próximas, libertação da muralha e sondagens arqueológicas; e em 1986 sofreu obras de beneficiação. Na década de 90 do século XX, foi instalada uma casa de chá, entre os muros que restam do Paço das Infantas, obra do Arquitecto João Mendes Ribeiro, do IPPAR.

Actualmente, a entrada no Castelo é feita pela Porta da Peste ou de Coimbra e era uma simples porta da barbacã, de arco rebaixado ou abatido, deve ser reforma dos séculos XV-XVI. Logo ao seu lado direito, o visitante depara-se com a grandiosa torre de menagem, quadrada, ligada ao muro e colocada no ângulo do castelejo, hoje, muito restaurada. Associada à torre de menagem está a chamada Lenda das Arcas que, segundo a tradição oral, estariam aqui enterradas duas arcas, uma com ouro e outra de peste, que ninguém jamais ousou procurar. Segue-se-lhe um muro com quatro torres, duas delas com aberturas em arco quebrado. Na cerca principal surgem mais cinco torres. A barbacã é um muro baixo, ameado, sem torres, que envolvia toda a fortaleza principal. Pelo lado Norte, em direcção ao vale, dois muros perpendiculares à muralha antiga, com adarves em degraus contínuos e terminando em fortes torreões angulares. A outra porta, que dá acesso à vila por ruas medievais extra-muros, é a de Nossa Senhora do Rosário ou do Sol, também simples porta de barbacã, de estilo ogival, tinha o adarve a menor altura e o pano em que se abre era menos extenso (destinada a servir só a barbacã). Nas ombreiras das duas portas ainda são visíveis os buracos em que rodavam as portas de carvalho, chapeadas de ferro e munidas de trancas.

Chegados ao cimo da avenida de calçada, um edifício ressai do panorama, a Igreja de Santa Maria da Alcáçova. É de invocação a Nossa Senhora da Assunção, que provem da associação que o povo devoto fez da antífona Ó Sapinentia... Ó Adonai..., introduzida pelo reforço do vocativo e cantada de 17 a 24 de Dezembro de cada ano, com a iconografia da Senhora. Por tudo isto, esta igreja tornou-se centro de romarias periódicas.

Foi mandada edificar em 1090, pelo Presbítero Vermudo (ele próprio afirmou que a ergueu desde os alicerces), por ordem do Conde D. Sesnando, com a condição de metade das rendas dela ficarem pertencendo à Sé de Coimbra, no tempo do Bispo D. Crescónio. Depois de concluída a igreja, foi lavrada a escritura de doação dessa metade que está datada de 24 de Dezembro de 1095.

Reza a tradição, que esta igreja foi trasladada de um monte, situado a noroeste da vila cerca de tres tiros de espingarda, onde se conservavam vestígios da Igreja de S. Gens. Um dos primeiros priores foi Turtusendo a quem sucedeu o presbítero Soeiro. Este exerceu o priorado durante 6 anos, deixando ao abandono as propriedades e a igreja (em que ruiu o tecto). Custou-lhe avultada indemnização, bem como a perda do padroado, restituído apenas a 22 de Julho de 1103 pelo bispo de Coimbra, D. Maurício Burdino, juntamente com a Igreja de S. João.

A igreja foi reedificada no primeiro terço do século XII e sagrada entre 1128 e 1131 (conforme consta na inscrição), no priorado de D. Sisnando, sagração realizada pelo Bispo D. Bernardo. Aquele prior deixou a Igreja da Alcáçova no momento da fundação do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde ele continuou a sua vida de fé. Em 1245, por deposição do rei D. Sancho II pelo Papa Inocêncio IV, o Bispo D. Tibúrcio, com alguns cónegos da Sé, sentindo-se pouco seguros em Coimbra, refugiaram-se na alcáçova do castelo e estabeleceram-se junto à Igreja. Por morte, D. Tibúrcio foi sepultado neste templo. Também aqui se reuniram os capitulares para elegerem o novo Bispo que lhe sucedeu: D. Domingos ou Mestre Domingos, também ele falecido nove meses após a eleição, sem que fizesse a entrada solene na catedral. D. Afonso III ordenou que os restos mortais de D. Tibúrcio fossem levados para a Sé Velha de Coimbra, em condigno sepulcro, mandado fazer pelo próprio soberano. Em recompensa, este monarca renovou a doação, ao Bispo D. Egas Fafes, do padroado que lhe competia tornando-a colegiada, que o transmitiu ao Cabido.

Este templo sofreu algumas reformas em 1285, como refere o testamento de João Guilherme Sancino. Foi reedificada definitivamente no primeiro quartel do século XVI, obra atribuída ao arquitecto Francisco Pires, sob a ordem do bispo-conde D. Jorge de Almeida, que aproveitou para as alvenarias o material da demolição, tendo-se empregado mesmo no primeiro arco à direita uma lápide fúnebre da Era de 1230.

No século XVIII, ainda tinha a irmandade do Santíssimo Sacramento e, como filiais, as vigararias de Reveles, Alfarelos, Santo Varão, Meãs e o curato do Seixo. Manteve-se igreja colegiada até à data da sua extinção, em finais do século XIX e detinha um pároco, 5 beneficiados e um tesoureiro. A igreja foi paroquial desde sempre, sendo a última consagração datada de 30 de Julho de 1874, por Decreto de D. Manuel Correia de Bastos Pina, que une as duas paróquias numa só: Santa Maria de Alcáçova e São Martinho, com sede nas duas igrejas.

O edifício sofreu obras pelo Ministério da Guerra e depois pelos Monumentos Nacionais (1933): empreitada no valor de 538.000$00, constando de trabalhos de consolidação de colunas, envernizamento de portas, vedações de caixilhos e reparações de janelas, colocação de grades de ferro de protecção na sacristia, etc. Em 1962 procedeu-se à reparação da cobertura e pavimento da Igreja; em 1963, colocação de portas e janelas; em 1969, restauro de cantarias da Igreja; em 1986 e 1994, obras de beneficiação.

Em termos arquitectónicos, trata-se de uma composição estrutural simples, com três naves de cinco tramos e três capelas absidais. Os cinco arcos de cada arcada são quebrados, quase equiláteros, simples e chanfrados. As colunas são de fuste formado por quatro colunelos em movimento helicoidal, à excepção do primeiro par, a contar da porta, em que são octógonos e direitos e as respectivas bases e capitéis mais simples.

A nave central encontra-se levantada, sem janelas acima das arcadas. A cabeceira tem uma composição complexa: arcos abertos entre as capelas laterais e a mor, em plano, dão a aparência de um transepto; pilares compostos, como sendo a reunião de quatro dos da nave e os três frontais têm a mesma composição de enrolamento das colunas. As três ábsides são semi-circulares, com as paredes externas em quase continuação das laterais das naves. A capela-mor e a colateral do Evangelho são cobertas de abóbada de berço e quarto de esfera, simples, sem arcos de reforço (românico condal do primeiro terço do século XII). Na parte curva da capela-mor, aparecem dois pequenos óculos com ornato flamejante. A capela da Epístola tem cúpula dividida em quartelas.

As paredes seguem em parte do comprimento da igreja o traçado antigo, podendo ter sido esta acrescentada cerca de dois tramos. Junto à parede da fachada há mísulas decoradas com folhagem. A frontaria apresenta porta de arco quebrado (ogival), de dois colunelos e breves capitéis, acompanhados de molduras finas, cujos perfis se continuam nos arcos. Sobrepõe-se-lhe um óculo pequeno (rosácea), de bastantes molduras concêntricas. Acima da porta crava-se o brasão de D. Jorge de Almeida.

O campanário é angular, com torre baixa, no cunhal direito, de quatro faces, que descem internamente até ao solo, com tambor saliente da escada de acesso. Primitivamente a torre tinha só duas faces do cunhal, entre as quais se crava o novo brasão daquele bispo.

A meio da parede direita do edifício, rasga-se a porta travessa, com arco em forma de sanefa, de influência mourisca, com monograma FP, encimada por outro brasão do mesmo prelado, com legenda. Tem duas janelas de cimo arredondado. A porta da sacristia é de verga lobulada e encontra-se na parede norte, junto ao absidíolo, quadra ampliada, conservando janela manuelina, de verga rebaixada.

Inicialmente, a capela-mor tinha um nicho ao fundo e um retábulo em pedra, semelhante ao da absidíola do Evangelho, que foi mutilado e destruído. Em sua substituição, foi aqui colocado um outro de talha barroca em data incerta, que pertenceu, originariamente, ao Convento de Nossa Senhora de Campos. Trata-se de uma estrutura arquitectónica composta por arco triunfal, com trono no interior (estrutura piramidal). Ornamentação rica e variada, traduzindo jogos de luz e sombra e perspectivas de avanços e recuos. Apresenta ainda motivos estufados de encanagem alternando com vazios do tom da pele. Encerra a imagem de Nossa Senhora da Vitória, no cimo do trono. As Memórias Paroquiais de 1758 fazem referência a algumas imagens que existiam no altar-mor (S. Bento, S. Mateus, S. Bartolomeu e S. Benedito), que desconhecemos o seu paradeiro. Faz ainda alusão à existência de uma capela (para além das três absidais), instituída por Maria de Brito, com Nossa Senhora da Assunção e o Santo Apostolado no altar e as imagens de S. José e S. Nicolau, que vieram de uma capela situada ao norte da vila e que se encontrava muito arruinada.

O retábulo situado na Capela lateral do Evangelho é dedicado a Nossa Senhora do Rosário. Tem três nichos com as imagens de Nossa Senhora do Ó, grande obra do Mestre Pêro do século XIV, Santa Apolónia e Santa Lúzia.

O Retábulo do Santíssimo Sacramento está situado na Capela da Epístola e é uma obra do século XVI atribuída à Escola de João de Ruão. Está dividido em dois andares de pilastras e colunelos, dispostos cada um em três panos. No de baixo o sacrário, em pedra, com delicados relevos e onde os anjos em adoração incensam o Santíssimo e pequenas arcaturas através das quais se vê a luz do sol, que entra por vidros encarnados duma pequena janela (ao lado as imagens de S. Pedro e S. João Baptista). Em cima, está representada a Última Ceia do Senhor (à esquerda está Iscariote com a bolsa na mão) ladeada pela aparição de Cristo à Virgem e a Madalena. Letreiro Eucarístico. No banco, os bustos do Rei David com a harpa e Melquísedec, com turíbulo e os pais da proposição. Deste lado está uma escultura de Santana ou Santas Mães.

Junto à Igreja de Santa Maria da Alcáçova vê-se a base cavada na rocha dum silo, com o revestimento interno. Há um outro ou uma cisterna no recinto do castelejo.

Saindo da Igreja pela porta principal, no lado direito, situa-se o cercado norte, onde está localizada a Capela de S. João. Existem referências a esta capela e ao prior Soeiro que a tinha com Santa Maria, de 1103. Está ligada a um poema épico do Abade João. A 11 de Março de 1251, Inocêncio IV expediu a Bula sua nobis, dirigida ao bispo de Viseu, para obrigar os priores de várias igrejas da diocese de Coimbra, entre elas a de S. João de Montemor, a pagar ao bispo as procurações que lhe deviam ratione visitationis. Era assim designada no Catálogo de todas as igrejas, comendas e mosteiros que havia pelos anos de 1320 e 1321 e a sua lotação era de 40 libras. Desde o século XII que tinha presbítero.

Consta ter sido mandada edificar, a primeira capelinha, pelo Abade João, sob a invocação de São João Evangelista, no local onde costumava entregar-se a penitência, sendo nela que este guerreiro celebrava as cerimónias de culto e instigava os habitantes de Montemor a combater os mouros. Tempos depois, esta capela teria sido arrasada, sendo construída outra no mesmo lugar mais tarde. Foi-se arruinando com o passar dos tempos.

É tradição que a primitiva Virgem foi exposta ao culto, nesta capela, em 848, depois da vitória do Abade João, dizendo ainda que era invocando o seu nome que os defensores do castelo combatiam: Cerra, Cerra, por Santa Maria da Vitória! - Clamavam os cristãos, ao manejar a adaga ou a lança, nas pelejas contra os mouros ou na defesa do castelo.

A provisão de D. João V, de 20 de Dezembro de 1746, que mandou que a Virgem Nossa Senhora, com o atributo de Vitória, fosse invocada como padroeira de Montemor-o-Velho, determinou também a reconstrução da capela. Em Maio de 1852, a capela foi mais uma vez reparada, tendo nela sido recebida, festivamente, a rainha D. Maria II. Em 1863, sofreu mais um restauro.

A esta capela está associada a festividade em honra de Nossa Senhora da Vitória. Foi possivelmente em 1746 que se realizaram pela primeira vez estes festejos e a última a 10 de Agosto de 1863. Esta festividade prolongava-se por oito dias e nela participava o povo dos concelhos limítrofes e de vários pontos do País. Das festas fazia parte um simulacro de assalto: a praça da Câmara estava cercada por um palanque de seis degraus, em anfiteatro, tendo, do lado do Hospital da Misericórdia, um castelo, ocupado pelos cristãos; no lado oposto erguiam-se várias tendas de campanha, nas quais se encontravam os mouros e o rei. Iniciava-se o espectáculo com um passeio, pelo campo, de D. Ramiro e sua gente, todos a cavalo, o qual era feito prisioneiro pelos mouros, mas conseguia fugir para o castelo, que era logo sitiado, resistindo com dificuldades. Do lado mouro recebiam propostas para a sua entrega, sem que os cristãos acedessem. Começava então o fogo vivo de lado a lado e o Abade João incitava a que se combatessem os infiéis. Neste momento, os guerreiros abandonavam o castelo e iam ao combate directo. De repente, aparecia num nicho Nossa Senhora da Vitória e os mouros eram vencidos. Outro número da festa era constituído pela procissão para a Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, na qual se incorporavam figurantes, representando os mouros prisioneiros, D. Urraca, irmã do Abade e os seus três filhos, estes com um risco encarnado em volta do pescoço.

Actualmente, está reduzida aos alicerces de plano rectangular. Em 1995, as paredes internas estavam revestidas com pinturas de motivos concheados da segunda metade do século XVIII. Em data incerta, o pórtico da frontaria da capela foi substituído por um lindo pórtico renascença que, apesar de estar em bom estado de conservação foi apeado no último quartel do século XIX e as suas cantarias aplicadas como pedras nas paredes de uma construção. Na mesma frontaria estava embutida uma sepultura, com inscrição romano-gótica, de Pedro Afonso, falecido no século XIII (provavelmente no Museu Machado de Castro). Por cima da sacristia ficava um campanário, com uma só sineta, as paredes interiores revestidas com pinturas a fresco, cujo desenho é de estilo Luís XV. O retábulo tinha três nichos e era de pedra. Na fachada do lado da Epístola, estava colocada a lápide comemorativa do lendário sucesso da degolação, local onde é tradição que ela se fizera e se operara o milagre da ressurreição. Esta lápide foi mandada colocar em 1713 pelo juiz de fora Gaspar Pimenta Avelar e pelos capitães Manuel de Mendenha e Agostinho Couceiro Portugal e ainda pelo alferes André Pessoa de Almeida.

No local onde nos encontramos é possível desfrutar de outras paisagens de referência que contribuem também para a singularidade desta região: a exuberante vista sobre os campos férteis do Mondego e a reserva natural do Paul da Quinta do Taipal. Este situa-se numa das digitações da planície aluvial do Mondego, na margem direita entre Quinhendros e a Quinta do Cano, que foi outrora ocupado com orizicultura. Corresponde, actualmente, a uma área de alagamento por não ter drenagem devido às obras do vale do Mondego, constituindo, por isso, um paul sempre alagado. É uma área de antigos campos de arroz, com cerca de 50 hectares. A composição florística é semelhante à do Paul da Madriz, com predominância para o caniço (invasor dos arrozais abandonados) e o bunho. Em relação à fauna passa-se o mesmo, destacando-se os patos, os galeirões e as garças.

No lado oposto ao da Capela de S. João, vislumbram-se as ruínas de um edifício que outrora foi palácio. Referimo-nos ao Paço das Infantas. Atribui-se a D. Urraca, mulher de D. Raimundo, a sua edificação e aqui habitaram infantas, reis e rainhas, nomeadamente as Infantas D. Teresa, D. Branca, D. Sancha e D. Mafalda, D. Afonso III, D. Afonso IV, a Rainha Santa Isabel, os cavaleiros da Ordem do Templo que abandonaram o Castelo de Soure, os ministros de D. Afonso IV, D. João I, D. Manuel I, D. João III, Infante D. Pedro, D. António Prior do Crato e alguns dos alcaides.

Sofreu a sua última reforma na época manuelina, avançando sobre a linha da barbacã. Nos primórdios do século XX, visava-se uma janela manuelina com vestígios da coluna central e de cantaria rendilhada e, nos anos 40, sob alegação de ameaçar ruína, demoliu-se o que restava da velha residência senhorial, onde D. Afonso IV cedeu à pressão dos seus ministros e, como já referimos, ordenou a morte de Inês de Castro.

A descrição deste edifício é, actualmente, muito difícil de realizar porque, por um lado, restam apenas partes de algumas paredes, por outro, existem poucas referências documentais, encontradas até ao momento, respeitantes à sua constituição. É, sem dúvida, de origem medieval e possuía alguns elementos manuelinos. Localizada na parte sudeste das muralhas do castelo, tinha a fachada sobranceira à vila, de arquitectura rica em ornatos e ameias góticas, onde se rasgavam algumas janelas, uma das quais manuelina. Em 1906, apresentava ainda vestígios de uma coluna central e cantarias rendilhadas, tendo sido entretanto demolidas por ameaçarem, com um desmoronamento, as casas que ficavam na encosta do monte. Assim, restaram alguns fragmentos informes de paredes em ruína, que se mantiveram até aos nossos dias.

Chegado às ruínas da velha alcáçova, onde outrora a Castro foi sentenciada, é tempo do visitante efectuar uma pequena pausa no seu percurso para usufruir da bela paisagem e saborear as Lágrimas de Inês, na Casa de Chá O Paço das Infantas. Este doce foi especialmente concebido por Cacilda Craveiro Correia, do Café Pastelaria A Pousadinha, no âmbito das actividades do Centro de Estudos Inesianos, de que adiante falaremos.

Com o projecto da autoria do Arquitecto João Mendes Ribeiro, a Casa de Chá ocupa a parte central das ruínas do Paço das Infantas, numa edificação leve, tornada perfeitamente inóqua pelo modo geometrizado como se solta das paredes das referidas ruínas.

Essa edificação é marcada por alguns elementos maciços, a saber: dois planos horizontais substancialmente fortes – cobertura e pavimento – unidos por um paralelepípedo cromaticamente distinto, que corresponde às áreas de serviço da Casa de Chá. O pavimento prolonga-se a sudeste num estrado em madeira tratada, que constitui a esplanada. As paredes são em vidro simples, modulado e liberto de prumos de caixilharia, com excepção das portas que assim ficam marcadas por aro e caixilho de ferro. A Casa de Chá engloba os sistemas de infraestruturas de climatização, bem como as instalações sanitárias e a copa.

Aqui sentado, interroga-se o viajante do significado de uma altaneira janela que o tempo conserva incólume do antigo Paço das Infantas. Trata-se da janela dos namorados, de onde, segundo a tradição, D. Pedro chorava a saudade de Inês no local onde fora condenada.

Saindo do Castelo pela Porta da Peste e contornando parte da muralha exterior para o lado da vila, entramos no Caminho de Santo António.

Ao longo da barbacã Sul, ligando as duas portas actuais do castelo, desenvolve-se o Caminho de Santo António ou da Madalena, privilegiado miradouro sobre os campos, casas e típicas ruelas da encosta nascente de Montemor. O seu nome advém de nele se encontrarem as igrejas (infelizmente hoje arruinadas) de Santo António (construída em 1500 e reconstruída em 1881) e da Madalena (que já existia no séc. XIII).

Descendo ao povoado, o primeiro edifício que o viajante encontra, do lado direito, é a Igreja de Santa Maria Madalena. De origem medieval, já existia em meados do século XIII. A freguesia de Santa Maria Madalena já existia em 1251, pois nesse ano, a 11 de Março, expediu Inocêncio IV a Bula Sua Nobis, dirigida ao Bispo de Viseu, para obrigar os priores de várias igrejas da diocese de Coimbra, entre elas as de Santa Maria Madalena, S. Salvador e S. João a pagar ao bispo as procurações que lhe deviam ratione visitationis.

Foi uma das duas igrejas (a outra S. Miguel) cujo padroado D. Manuel I ressalvou da doação de Montemor-o-Velho ao príncipe D. Jorge, em 1500. Era da Coroa Real, teve priorado e anexo o hospital com o mesmo nome, para o tratamento de raparigas honradas e solteiras. Paulo III concedeu ao Conde de Tentúgal, D. Rodrigo de Melo, duas terças partes dos frutos da Igreja. O bispo de Coimbra, D. Manuel de Meneses, foi seu prior e, depois de bispo, sagrou-a. Foi sede duma das antigas paróquias da Vila e rendia, no princípio do século XVIII, uns 200$000 réis anuais. Também aqui funcionou a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, com compromisso de 1574. Encontra-se abandonada e arruinada desde finais do século XIX. Na última década desse século, apesar da paróquia estar extinta, os mortos eram enterrados dentro da igreja e no adro, de parceria com o cemitério da Borralha, a Alcáçova e S. Martinho.

Este edifício modesto encosta-se à barbacã sul do Castelo. Do que resta, podemos observar a porta principal, simples, sem impostas e arestas chanfradas, com arco quebrado equilátero, do século XV. No lado esquerdo da frontaria foi colocado um campanário manuelino, de duas ventanas grandes e uma pequena no vértice, com esferas, que também decoram a cimalha da empena. A sul, a porta travessa é rectangular e chanfrada, cravando-se sobre ela uma cabeceira de sepultura, discóide, com cruz floreada. No interior, em frente a esta, há uma mísula de ornatos em cordas, manuelina, trabalho popular. Na esquina da capela-mor, havia uma lápide romana dedicada a Júpiter (I. O. M. - Iovi Optimo Maximo).

Em 1758, era descrita como sendo uma igreja de nave única, com três altares. No altar-mor encontrava-se o Santíssimo Sacramento e as imagens de Santa Maria Madalena, São Sebastião e Santo Estêvão. Num dos altares colaterais, estavam as imagens de Nossa Senhora da Piedade, São Mateus e São Brás. No outro altar colateral, encontravam-se as imagens de Santa Luzia, Santo António, São Matias, Santa Catarina, Santo Antão e Santo Amaro. Desconhecemos o paradeiro destes altares e imagens.

Um pouco mais à frente depararmo-nos com novo edifício religioso, a Capela de Santo António, situada junto à torre do relógio e interceptada pela linha da barbacã. Na opinião de Correia Góis, a sua edificação data de 1079, por ordem de D. Sisnando, Governador de Coimbra. Funcionou como primeira matriz da freguesia do Salvador e ali foi sepultado o famoso Guterres Pais, ilustre fidalgo que viveu e reformou Montemor-o-Velho na época da reconquista cristã e repovoamento. Sofreu reformas no século XVI (há autores que afirmam que foi edificada nesta altura) e ainda no século XIX (1881), perdendo o seu carácter primitivo.

Na década de 1930, os Monumentos Nacionais levaram a cabo obras de recuperação em Montemor-o-Velho, tendo sido determinado, a 16 de Junho de 1934, a sua demolição, uma vez que se encontrava em ruína. O seu recheio (camarim, imagens, etc) deveria ser transferido para a Igreja de Santa Maria Madalena, pois esta seria reedificada. No entanto, o processo não se desenvolveu desta forma. A Capela de Santo António não foi demolida, apenas destelhada, mantendo-se apenas com as paredes até aos dias de hoje.

Apresenta planta de nave única com três capelas. Do que resta podemos observar a fachada, simples com pináculos, constituída pela porta principal, encimada por uma janela e uma inscrição. No interior, permanece um arco de volta inteira, despido de ornamentos. As Memórias Paroquiais de 1758 referem a existência no altar-mor das imagens de Santo António, São Francisco e São Jerónimo; num dos altares colaterais, a imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso e, no outro, São Mateus. Desconhecemos o seu actual paradeiro.

Outro ponto de paragem inevitável será o Quarteirão das Artes. A Cooperativa de Serviços Culturais Teatro dos Castelos CRL de Montemor-o-Velho, fundada em 1991, tem como objecto principal a realização, produção e promoção de actividades culturais. A sua sede é, junto à Porta do Sol do Castelo de Montemor-o-Velho, no Bairro da Alegria, lugar onde se situa também a Galeria Torre do Relógio, seu primeiro espaço de exposições. Como laboratório teatral, utiliza sobretudo o teatro de bolso da Escola Secundária de Montemor-o-Velho, por protocolo com este estabelecimento de ensino.

Constitui seu grande objectivo, o de atingir o lançamento das bases de uma escola informal de artes, desenvolvendo a vertente formativa e interdisciplinar através de programas diversificados, dinamizando a Galeria Torre do Relógio, a Oficina e outros espaços do Quarteirão das Artes.

Entrando pelo Centro Histórico, descem-se ruelas estreitas, becos e escadinhas que vale a pena percorrer devagar. A próxima paragem será a Igreja Matriz de São Martinho. Segundo a lenda, no século IX, fundou-se um convento beneditino de São Martinho pelo Abade João do Mosteiro do Lorvão ou pelo Padre Arhgar, construído, provavelmente, no local onde se encontra a actual igreja, que teria sido sua capela. Data de 1130 a provável fundação da igreja segundo lápide da fachada Sul. Em 1195, foi passada carta de doação por D. Sancho I ao abade de Alcobaça e Ceiça da Herdade da Barra ressalvando o domínio útil dos dízimos e coroa pastoral da Igreja de São Martinho.

A 1 de Setembro de 1239, o bispo de Coimbra, D. Tibúrcio e D. Teresa travaram uma contenda pela posse da igreja, arbitrada e solvida após intervenção dos crúzios de Santa Cruz de Coimbra. Em 1285, o cónego da Sé de Coimbra, João Guilherme Chancino, deixou em testamento verbas para se levantar a igreja. Deve tratar-se da reconstrução e não de edificação. Em 1286, D. Dinis doou o Padroado das igrejas da vila a sua irmã D. Branca. Em 1355, D. Afonso IV doou a Igreja de São Martinho ao padroado do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Em 1357, D. Pedro I confirmou a doação. Em 1362, a igreja aparece documentada. Em 1369, foi instituída a capela dos Coutinhos por Afonso Vasques.

No século XVI, foram executados os altares laterais da igreja e o túmulo de Luís Pessoa, cavaleiro da Casa Real, falecido em 1531 e de sua mulher e sobrinha D. Mécia Quaresma Costa falecida em 1524 / 1529. De 1596 é o túmulo de Diogo Zuzarte já no altar de Santa Luísa. Em 1715, Manuel Pessoa de Sá e Cunha, fidalgo da casa do Rei, era administrador da capela de Santa Catarina. Nesse ano existia ainda a capela dos Pinas que pertenceu primeiro a Afonso Briam. Em 1860, foi construído o portão de ferro no adro da igreja.

Em 1880, segundo uma lápide na fachada Oeste, fizeram-se reformas na igreja (não confirmadas porém em Diário do Governo). Ter-se-ia, então, alterado a fachada principal e o interior (arco cruzeiro, elevação do pavimento da igreja que se encontraria ao mesmo nível do baptistério); construção da torre sineira; pintura do retábulo-mor e das imagens do retábulo lateral Norte. Em 1923, o Prior Augusto Nunes Pereira põe a descoberto o arcossólio e a estátua jacente que se encontravam revestidos de pedra e cal.

Em termos arquitectónicos, trata-se de um templo com planta longitudinal composta, nave única, capela-mor rectangular com torre sineira quadrada adossada a Este e sacristia a Norte, baptistério a Norte da nave. A fachada principal apresenta pano único definido por parastáticas munidas de plintos e ábacos moldurados rematados por urnas. O portal é rectangular e é encimado por um janelão rectangular, central, de jambas prolongadas abaixo do peitoril moldurado em frontão recortado invertido. Sobre a verga está uma lápide de pedra com inscrição. O remate é em frontão de lanços arquitravado coroado por cruz de Cristo em pedra. A torre sineira é de dois andares, com cornija arquitravada divisória, o primeiro rasgado superiormente por olhos de boi nas faces Este, Oeste e Sul e por porta rectangular a Norte com acesso por escada de patamar e varanda de grades, adossada à face Este da sacristia. O piso superior de parastáticas, munidas de bases e capitéis inseridos na cornija de remate, é rasgado por quatro janelões sineiros em arco de volta redonda.

O interior apresenta-se como um espaço diferenciado iluminado pelo janelão da fachada Oeste e pela janela que ocupa toda a largura do 4º tramo a Sul. A nave é de 8 tramos rectangulares definidos por arcos torais de volta quebrada descarregando em pilares de secção quadrangular adossados aos muros munidos de ábacos continuados pela cimalha.

Nos dois primeiros tramos da nave localiza-se o coro-alto, de madeira e varandim de balaústres, com acesso por escada. O arco triunfal de volta perfeita e os altares laterais são de pedra; o retábulo-mor é de madeira com portas de comunicação para o muro fundeiro da capela onde se vê fresta ogival entaipada. Está classificada como Imóvel de Interesse Público.

O Solar dos Alarcões encontra-se, pois, em fase de preparação e recuperação, para a instalação da Biblioteca Municipal. As primeiras notícias sobre o local onde se encontra implantado o Solar dos Alarcões datam de 1498, através de uma compra feita por Diogo da Fonseca Andrade (descendente de Fernando Alvares de Andrade, escrivão da Fazenda e tesoureiro de D. João III). Em 1557 ou 59, aparecem referenciadas umas casas como fazendo parte do vínculo instituído por Gaspar da Fonseca Andrade e Dona Leonor de Mascarenhas. Em 1684, foi lavrado um contrato entre Thomé Chichorro e Gaspar da Fonseca que demonstra que parte do beco que existia a nascente pertencia à casa.

Foi por ordem de D. Maria do Ó Osório Cabral Pereira Forjaz de Meneses (viúva de D. José de Alarcão Velásques Sarmento Osório) que, em 1870, foram iniciadas as obras de reconstrução do solar. Esta família passou a estar ligada com a dos Andrades desde o casamento de D. Tomás Velásques Sarmento de Alarcão, fidalgo da Casa Real e Comendador e Alcaide de Casével, com D. Leonor Inês de Castro, filha de Domingos Correia da Fonseca e de sua mulher Maria de Melo Fonseca, filha de Jacinto da Fonseca e Andrade.

D. José de Alarcão Velásques Sarmento Osório era descendente de D. João Velásquez de Alarcon, nobre espanhol que no tempo de D. Sebastião veio para Portugal e foi o primeiro dos Alarcões a viver em Montemor-o-Velho, pois a linha descendente da família encontrava-se anteriormente estabelecida no Espinhal, desde D. Manuel Caetano Velásques Sarmento de Vasconcelos.

D. João de Alarcão nasceu nesta localidade e era filho herdeiro de D. Maria do Ó tendo mandado construir, em 1889, um celeiro e um depósito para pipas de água e vinho, no lugar onde existia um celeiro em ruínas. Esta parte foi, mais tarde, vendida e transformada em habitação. D. João de Alarcão, apesar de ter nascido no Espinhal (5 de Novembro de 1854), tornou-se um dos notáveis de Montemor-o-Velho, sendo Reitor da Universidade de Coimbra por duas vezes, a primeira nos últimos anos do século XIX (tendo um papel importante no apaziguamento da greve dos estudantes de 1898) e a segunda já no início do século XX, voltando a ter a mesma intervenção em 1907 face a uma nova greve, esta de carácter revoltoso e com impacto a nível nacional. Entre outros cargos, foi Ajudante do Procurador Geral da Coroa, Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça a Par do Reino; foi Deputado pelos Círculos da Guarda, Funchal e Coimbra e também Governador Civil desta Cidade, da Guarda e, por três vezes, de Lisboa. Em 1905, foi nomeado Ministro das Obras Públicas e determinou a construção da ponte metálica sobre o Rio Mondego, em Montemor-o-Velho.

Em 1913, D. João de Alarcão ordenou a construção da Capela de Nossa Senhora da Conceição, anexa ao solar, em Montemor-o-Velho, bem como a realização de melhoramentos na casa de habitação. Morreu a 11 de Setembro de 1918 em Montemor, onde se encontra sepultado. Foi seu sucessor na vila, D. Luís de Alarcão Velásques Sarmento.

Em finais da década de 60 do século XX, o solar foi votado ao abandono até ser definitivamente desocupado. Em finais da década de 70, o edifício foi alugado aos Serviços Hidraúlicos do Mondego. Em 1985, o imóvel foi vendido por Maria da Conceição Ponces de Alarcão Velásques Sarmento Lopes da Silva a Deolindo Azevedo Correia, que o vendeu em 1988 à Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho. Desocupado desde a saída dos Serviços Hidráulicos e em avançado estado de degradação, foi adquirido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Velho em 1992.

Trata-se de um solar urbano, do final do século XIX, brasonado, num tipo corrente na província, de grande fachada simétrica bem fenestrada, com frontão triangular subido, ao centro, em destaque. A fachada principal desenvolve-se em três volumes: dois laterais e um central encimado por um frontão. Quatro pilastras demarcam esses corpos ou alas simétricas. Os dois pisos do edifício são separados por cimalhas (duas nos topos e duas demarcando o corpo central). No primeiro piso, as duas alas simétricas possuem uma porta, ladeada por duas janelas com gradeamento de ferro forjado. No segundo piso, os dois corpos laterais ostentam três janelas, sendo a do meio de varanda de sacada.

O corpo central apresenta, no primeiro piso, um portal relativamente simples com enquadramento de cantaria e flanqueado por duas janelas com gradeamento de ferro forjado. No segundo piso, possui três janelas de varanda de sacada. A cornija que demarca o frontão é interrompida, no topo, por uma chake saliente trabalhada (semelhante a uma pluma). Um pouco mais abaixo está o brasão, que entretanto caiu, que estava numa posição central e um pouco acima relativamente às duas janelas do sotão. As pilastras que demarcam os corpos da fachada terminam, também, superiormente com chakes: as exteriores são semelhantes a grinaldas e as interiores semelhantes a liras.

Na fachada posterior do edifício rasgam-se oito janelas no primeiro piso. No rés-do-chão existem mais três janelas, a porta da cozinha e três janelas de sacada. Um pequeno muro adossado e perpendicular à casa, separa a porta e a janela da cozinha. Na cobertura, esse espaço da cozinha manifesta-se pela chaminé. O muro, que continua curvando para a direita até atingir o muro limite da propriedade, esconde ainda um pequeno pátio (zona de serviços, onde estão uns galinheiros). Todas as janelas e portas do tardoz são emolduradas tal como na fachada exterior. As janelas do rés-do-chão (excepto a da cozinha) têm gradeamento (grelha reticulada).

O interior do edifício era muito rico, com móveis trabalhados embutidos nas paredes, centros trabalhados de alguns tectos, átrio em calçada e outros elementos decorativos, quase todos desaparecidos.

A Capela é de pequenas dimensões e planta rectangular. Os perímetros laterais da fachada exterior são demarcados por uma pilastra de cada lado. A porta, de madeira, é também emoldurada. Ao cimo está o brasão de família e no lado direito, o sino. Um vitral, no tardoz, deixa iluminar o interior da capela. Imagens pias estavam colocadas no altar. A fachada lateral esquerda tem uma pequena janela. Está classificado como Imóvel de Interesse Municipal.

Já na parte baixa da vila, sugere-se que o viajante oriente o seu olhar para o Solar dos Pinas, actualmente, propriedade da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho. O portal pertence ao Solar da família Pina, de onde se destacam as figuras de Fernão de Pina e Rui de Pina. Fernão de Pina (século XV- século XVI) foi o filho mais velho de Lopo Fernandes de Pina e de D. Leonor Gonçalves. Herdou de seus pais a casa de Montemor-o-Velho, foi fidalgo do Rei D. João II e comendador do Vimieiro, na Ordem de Santiago. Em 1481, com Rui de Sousa e João Elvas, fez parte da embaixada enviada por D. João II ao Reis de Inglaterra, Eduardo IV, para conseguir que este monarca proibisse a partida para o golfo da Guiné de uma armada organizada pelo duque de Medina Sidónia.

Em 1497, foi encarregado por D. Manuel I de redigir a reforma dos forais. Nesta exaustiva tarefa, que implicou a substituição dos forais antigos por outros mais consentâneos com a época, Fernão de Pina teve a colaboração de Rui Boto, João Façanha, Diogo Pinheiro, João Pires, Brás Neto, João de Faria, Luís Eanes, João Cotrim e Pêro Jorge, entre outros.

Faleceu entre 1521 e 1524. Os seus ossos estão depositados na Capela da Senhora da Piedade, na Igreja do Convento dos Anjos, onde se encontra gravado o seguinte epitáfio: AQVI IAZEM HOS OSSOS DO MVI NOBRE FIDALGVO FERNAO DE PINA QVE PER SVE SABER E MERECIMETOS TEVE NESTES REIGNOS DE PORTVGAL CARGVOS MVI HOMRADOS MAODOV-HOS AQVI POR A MVI VERTVOSA SRA MOR TEIXEIRA SVA MOLHER NESTA CAPELA QVE ELA MAODOV FAZER E A DOVTOV DE CERTOS BEES PERA NELLA SE DIZERE CERTAS MISAS EM CADA ANO POR SVAS ALMAS E DE SEVS FILHOS NO ANO DE 1542.

Rui de Pina (1440? -1518/22) foi escrivão, notário público, diplomata e cronista dos reinados de D. João II e D. Manuel I. Foi o terceiro filho de Lopo Fernandes de Pina e de D. Leonor Gonçalves. Mostrou desde muito cedo gosto pelo estudo da história sagrada e profana. Homem de grande capacidade de acção, mereceu a confiança de D. João II, que o encarregou de várias missões diplomáticas. Presenciou na sua Corte aos grandes acontecimentos do seu governo e assistiu à execução do duque de Bragança e à morte do Rei. Foi incumbido de escrever as crónicas do Reino, em comissão, uma vez que o cronista oficial era Vasco Fernandes de Lucena. Ao subir ao trono, D. Manuel não só lhe confirmou as mercês de D. João II, como lhe fez novas. Foi ele quem o nomeou cronista-mor do Reino, com 1200 réis anuais, sendo também nomeado guarda-mor da Torre do Tombo e da Livraria Real, cargos que manteve até à sua morte e em que lhe havia de suceder o filho, Fernão de Pina.

Com o seu nome correm as crónicas de D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II, D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso IV, D. Duarte, D. Afonso V e D. João II. A autoria destas crónicas tem sido alvo de discórdia entre os historiadores porque alguns afirmam que se trata de cópias e recompilações feitas por Rui de Pina. Apenas a de D. João II é, consensualmente, atribuída a este cronista-mor.

Entre os descendentes encontra-se Lopo Fernandes de Pina que veio a casar em Montemor-o-Velho com Leonor Gonçalves, filha de Pedro Gonçalves, cavaleiro-vassalo do rei D. João I e mulher Maria de Góis. Este fixou residência em Montemor, construiu uns grandes passos cercados e coroados de ameias. Segundo alguns autores, tratou-se de uma cópia do solar dos Pinas, em Espanha (Aragão), demolido em finais do séc. XVIII. O actual solar foi restaurado por Francisco de Pina e Sá, no século XVIII, descendente das família dos Pinas.

No início do século XX, talvez no âmbito de mais uma empresa de obras, foram pintadas nas paredes de uma sala nobre da casa paisagens representativas desta região. Hoje, este edifício encontra-se profundamente alterado, fruto de diversas reformas e acrescentos, mantendo-se, provavelmente, para além do portal, o muro ameiado.

Em termos arquitectónicos, o Pórtico é constituído por porta de verga curva e cimalha sobrepujada por concha, enquadrada por duas colunas dóricas em frente de pilastras colocadas em diagonal. Sobre as colunas, dois vasos espiralados com fogaréus e no espaldar as armas dos Pinas. Apresenta características barrocas não só no tipo de elementos decorativos utilizados (brasão e terminação das colunas) como na própria organização dos suportes.

Designada em tempos passados de Praça de D. Carlos e de D. Manuel II, a actual Praça da República constitui uma forma urbana alterada no século XIX, pela construção do actual edifício dos Paços do Concelho. O primitivo, até há pouco tempo desconhecido, consta no Tombo de Bens de Raiz da Câmara Municipal, elaborado em 1725, documento importante para a história do Município de Montemor-o-Velho. Trata-se dos autos de medição e demarcação do edifício dos Paços do Concelho e da chamada Praça Pública, designada actualmente pela Praça da República.

Quanto ao edifício dos Paços do Concelho, já desaparecido e pouco conhecido, ficamos a saber que se localizava na praça e era constituído por dois pisos, tendo no superior a casa da audiência, casa da câmara, casa do carcereiro e uma prisão; no inferior situavam-se três prisões, duas para os presos perigosos e uma para as mulheres, e o açougue.

No que diz respeito à Praça, é possível verificar que ela era de planta irregular, onde se encontrava o edifício já referido, bem como o Hospital de Nossa Senhora de Campos, o celeiro pertencente a Luísa da Costa Barreto, um chafariz, a estalagem de Manuel da Vitória e uma propriedade do Ducado de Aveiro.

Actualmente, a Praça é um espaço marcado pelo edifício da Câmara Municipal, tendo no alçado contrário a Galeria de Exposições (com a readaptação do Mercado Municipal); no topo Este a Associação Fernão Mendes Pinto e no topo Poente o antigo Hospital de Nossa Senhora de Campos, actualmente a funcionar como Lar de Terceira Idade.

Chegado à Praça da Republica, é tempo do viajante saciar o seu apetite, podendo optar por alguns restaurantes limítrofes, saboreando alguns manjares que a gastronomia local lhe oferece.

No final, sugerimos que adoce esta sua viagem com as espigas de Montemor, com as queijadas e pastéis de Tentúgal que poderá encontrar em frente dos Paços do Concelho.

A Igreja da Misericórdia de Montemor-o-Velho está classificada como Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto N.º 37728, de 05/01/1950. É obra do fim do século XVI, tendo sofrido reformas na segunda metade do século XVIII (a que talvez corresponda a data de 1761 do lavabo). Voltou a ser reformada no último quartel do século XIX (1873), quando era provedor o Reverendo Augusto Pereira Cardote.

Apesar de não existir qualquer informação relativa ao início das obras sabemos, através do cronista montemorense António Correia da Fonseca e Andrade, que, em 1715, existia no pórtico da igreja uma pequena tarja, com a data do fim da obra - 1555. Edificada na entrada sul da vila, este templo confrontava a norte com a vala que atravessava a vila em todo o seu comprimento e a sul com o rossio onde se realizavam as feiras anual, e mais tarde, quinzenal. Por se encontrar implantado numa zona baixa e por os terrenos e ruas contíguas lhe estarem num plano superior era, todos os anos, vítima das inundações do Rio Mondego, que causavam estragos, por vezes, irreparáveis.

Na sequência do vasto movimento de reforma das instituições de assistência, levado a cabo pelo poder régio, surgiu a Misericórdia de Lisboa, fundada em 1498, pela Rainha D. Leonor.

Seria naturalmente, pela mão régia que, 48 anos após a criação da Misericórdia de Lisboa, e satisfazendo um antigo desejo da Coroa de que, em todas as terras do Reino, fosse criada uma confraria que teria a mesma invocação e seguindo os mesmos estatutos da Misericórdia – mãe de Lisboa, a vila de Montemor-o-Velho viu nascer a sua Santa Casa da Misericórdia. Embora desconheçamos a data exacta da criação da Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho, é de crer que a mesma se tenha constituído durante o ano de 1546[1].

Situada em plano baixo, antigamente sujeita às inundações do Mondego, tem no flanco direito a casa do despacho e à esquerda arrumos. Apresenta planta de nave única, a capela-mor tem abóbada de pedra, curva, dividida em quartelas, mas desadornadas. O tecto do corpo é de madeira, em caixotões, que poderão ser já do século XVIII. O pavimento é lajeado em muitas das pedras observam-se inscrições sepulcrais dos irmãos da Misericórdia, benfeitores e indigentes ali sepultados.

Este templo possui três retábulos: o principal, da renascença decadente de finais do século XVI, composto por duas ordens de baixos-relevos: inferiormente, a Visitação de Nossa Senhora à prima Isabel entre a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora e o Nascimento do Menino Jesus (Presépio); na parte de cima, Nossa Senhora da Misericórdia, acompanhada da Circuncisão do Menino Jesus e a Adoração dos Reis Magos; a mesa do altar é setecentista e forma nicho, encerrando a Deposição do Senhor Morto no túmulo, velado por Nossa Senhora, São João, Marias (Salomé e Madalena) e Verónica, numa cena silenciosa e lacrimejante, da mesma época do retábulo.

O altar colateral do Evangelho, Oração no Horto, da mesma época do principal, é formado por um arco entre colunas e encerra um retábulo representando a Agonia ou Oração do Senhor no Horto. O altar do lado oposto tem as mesmas características, representando a Deposição de Nosso Senhor no Sepulcro.

Abre-se na parede da Epístola a Tribuna dos Mesários, de colunas jónicas em pedestais e entablamento direito, dos finais do século XVII. Possui ainda um coro lateral apoiado em colunas simples, cujas janelas são do século XVIII. O púlpito, provavelmente do século XVII, assenta em duas mísulas e tem grades torneadas, de madeira. A capela-mor e o corpo da igreja revestem-se de azulejos de enxaquetado, do século XVII, de losetas azuis e brancas. A sua fachada é modesta, no entanto, apresenta na edícula um baixo relevo, em calcário de Ançã, representando Nossa Senhora das Misericórdias, de qualidade superior aos retábulos, datada de 1540 (provavelmente reaproveitada): assente sobre um plinto, encontra-se de mãos postas e de manto aberto, elegantemente sustentado por dois anjos, abraçando as várias figuras civis e eclesiásticas que, prostradas a seus pés e genuflectidas, se encontram em atitude de profunda veneração (à direita da Virgem um papa, um cardeal, um bispo e outros dois dignatários da igreja; à esquerda os representantes da nobreza, em que se evidenciam um imperador, um monarca e três membros da fidalguia. A ladeá-la estão as duas janelas setecentistas, ao gosto barroco, que iluminam o coro alto e a nave. É encimada por um triângulo, no qual figura o Padre Eterno. O portal é de arco entre pilastras jónicas e entablamento, todo desadornado, com porta de madeira de castanho almofadada. Neste inseriram um escudo nacional setecentista. Delimitada lateralmente, no prolongamento dos cunhais de cantaria, por duas esferas, a empena do frontespício é rematada por uma elegante cruz latina assente sobre pedestal, tudo em cantaria (aqui colocada em 1739, da lavra de José Coelho, de Santo Varão).

A anteceder a frontaria da igreja, em plano inferior ao da estrada, emerge um adro em lajeado que, limitado por um muro (sobre este assenta um degrau de pedra lavrada com gradeamento de ferro forjado, entremeado por nove pequenas colunas em cantaria) se abre para o exterior através de cinco degraus que dão acesso a um pequeno portão, também em ferro forjado, que fica em frente à porta principal do edifício.

Seguindo pela Rua Dr. José Galvão, poderá o viajante demorar-se a apreciar o Teatro Esther de Carvalho que remonta à segunda metade do século XIX, 1882, e que resultou da adaptação da Capela da Confraria dos Clérigos de S. Pedro, designando-se Teatro Infante D. Manuel. Em 1884 passou a designar-se por Teatro Esther de Carvalho, perdendo a anterior designação de Infante D. Manuel. Em 1900, uma Comissão presidida por Bernardo Gonçalves Ferreira mandou reedificar o teatro, cujas obras foram dirigidas por Benedito Galvão de Carvalho. A 27 de Dezembro de 1903, foi inaugurado com a peça Filho da República, levada a cena por um grupo de amadores. Em 1908, tinha, segundo Sousa Bastos, um rendimento de 108$000 réis e uma despesa por récita de 6$000 réis, a iluminação era realizada a acetilene e a sala dispunha de 13 camarotes, balcão e plateia de 206 lugares. Até 1912 sofreu diversas obras.

Em 1998, encontrando-se em mau estado de conservação, surgiu um projecto de reabilitação, da autoria do Arquitecto José António Bandeirinha, propondo o restauro integral do edifício, com a preservação das estruturas de madeira originais. Estão previstas três utilizações principais para este edifício: para actividades destinadas à comunidade e acontecimentos significativos do concelho; espaço para trabalhos e acções dirigidas à população escolar do município; e acolhimento de companhias teatrais em residência artística.

Na década de 1990 o edifício foi distinguido no Concurso Património Arquitectónico Europeu Edifícios e Locais Históricos relacionados com as artes do espectáculo, promovido pela Comissão Europeia; galardoado com o primeiro prémio no concurso Apoio para Recuperação e Valorização do Património Artístico, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Está classificado como Imóvel de Interesse Público por Despacho de Março de 1983, Decreto n.º 67/97, DR 301, de 31 Dezembro 1997.

O Teatro Esther de Carvalho, assume-se actualmente como um espaço singular de programação cultural na Vila de Montemor-o-Velho. O CITEC - Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho, entidade que tutela o este espaço, foi fundado a 25 de Julho de 1970. Durante quase 34 anos de actividade, esta associação produziu mais de trinta criações teatrais, organizou 26 edições do Citemor, 30 estágios de formação, entre outras acções. Possui o estatuto de utilidade pública e em 1998 foi distinguida por Sua Excelência o Presidente da República, com o título de Membro Honorário da Ordem de Mérito.

O Citemor, que em 2004 cumpriu a sua XXVI edição é o mais antigo festival de teatro do país. A sua história está ligada à do grupo, seu impulsionador — o CITEC, Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho. Fundado em 1970, o CITEC organizou uma primeira Semana de Teatro em 1974, passando, no ano seguinte, a Festival. Estas duas iniciativas, lançaram a ideia de uma intervenção regular que, apesar de alguns anos de paragem, acabou por vingar, sendo hoje uma referência no quadro das artes do espectáculo em Portugal.

Ao longo da sua existência, o Citemor foi propondo diferentes figurinos, ditados, sobretudo, pela procura constante de um maior relacionamento com a região em que se insere.

Ao fundo da Rua José Galvão, avista-se o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, classificado como Monumento Nacional, por Dec. 16 Junho 1910, DG 136 23 Junho 1910 e Dec. n.º 26 461, DG 71 de 26 Março 1936 (Igreja e claustro). As fontes são unânimes ao declararem que esta casa conventual teve a sua origem numa pequena ermida pertencente a Diogo da Azambuja. Em 1494, o Papa Alexandre VI passou o breve da fundação do Convento dos frades eremitas de Santo Agostinho calçados ou gracianos, sendo o seu principal impulsionador Diogo da Azambuja.

As obras foram lentas, sendo a igreja a primeira a ser construída: nos primeiros anos de quinhentos estava já embutida na parede do lado da Epístola a arca funerária dos Cotas, datada de 1504, o que significa que a parede sul da igreja se achava concluída nesta altura. O mesmo se pode dizer da sua frontaria cujo cunhal foi deixado à vista durante as obras de conservação dos anos 30 do século XX. Em 1511, estava concluída a capela-mor, a expensas de Diogo da Azambuja. Pela mesma altura, deve ter-se acabado a sacristia cujo tecto, nos finais do século, foi coberto com os interessantes frescos que ainda hoje se mantém. Contemporânea da capela-mor e da sacristia é a torre sineira. Em 1514, já o convento se achava bem implantado em Montemor-o-Velho. Entre 1514 e 1518, rasgou-se, na parede que separa a sacristia da capela-mor, o magnífico túmulo de Diogo da Azambuja, que viria a falecer a 15 de Agosto de 1518. A partir deste momento, o Convento dos Anjos sobreviveu com parcos rendimentos.

Em 1535, os Pinas instituíram a sua capela funerária na parede sul da igreja. E, anos depois, em 1567, fez-se para a capela-mor um bom e grandioso retábulo de que subsiste o sacrário. No entanto, surgem notícias de que a 11 de Abril de 1572 o convento sofria grandes obras, excluindo a igreja. Outras obras foram ainda realizadas no final do século XVI: em 1591, foi feita a Capela da Anunciação, de Mateus Roiz, denotando já uma gramática maneirista; data de 1593 o altar do Espírito Santo (tratava-se provavelmente de um retábulo situado no lado do Evangelho do arco triunfal da capela-mor); a sacristia terá também sofrido algumas reformas. As intervenções do século XVII modificaram alguns dos aspectos arquitectónicos da igreja e desvirtuaram muito a sua traça, prejudicando mesmo, em alguns casos, as obras já existentes. Substituiu-se o tecto da nave, inicialmente de madeira, sendo alteado através de abóbadas de arestas em tijolo dispostos em três tramos. Para isso robusteceram-se as paredes, através de fortes pilastras em função de contrafortes internos, alteração que veio causar algum desequilíbrio a toda a nave e a prejudicar não só o púlpito, devido à inclusão de um contraforte por cima daquele, mas igualmente o arco triunfal da Capela das Almas, erigido neste século, em 1622, ficando com uma das suas pilastras laterais, semi-encoberta pela sobreposição da base do púlpito. A par destas alterações realizou-se, ainda, a construção do coro-alto da igreja e, pelas últimas décadas de seiscentos, era aposta na Capela dos Pinas a lápide relatando os infortúnios de D. Margarida de Melo e Pina.

No século XVIII, operaram-se novas reformas. Na parede do altar-mor foi pintado um grande retábulo fingido, de que hoje apenas restam fragmentos e, já para os finais do século, foram introduzidos nas outras paredes da capela-mor azulejos historiados com cenas da Vida da Virgem, cujo rasto se perdeu. O túmulo do fundador foi retirado do seu local primitivo e colocado a um canto. Também o altar quinhentista foi substituído por outro, de madeira, no seguimento do estilo utilizado em Santa Cruz desde cerca de 1750. No andar superior do claustro foi incluída uma capela abobadada com comunicação para o coro.

Em 1834, o convento foi extinto, sendo alienados, dispersos ou abandonados os seus bens móveis e imóveis. Só em 1933 é que a D.G.E.M.N. dá início ao seu louvável empreendimento de recuperação.

O edifício apresenta planta composta pela igreja, sacristia, cozinha, refeitório, claustro, sala do capítulo, celas, portaria e outras dependências. A igreja é de planta longitudinal, uma nave, coro-alto e capela-mor. A fachada principal apresenta porta rectangular entre pilastras, sobrepujada de frontão interrompido por nicho e sobre janela do coro e remate em cornija com cachorros e gárgulas. À esquerda desenvolve-se o claustro e outras dependências. No interior estão duas capelas de cada lado da nave que tem cobertura em abóbada de arestas. Um arco cruzeiro dá acesso à capela-mor, rectangular, de contrafortes angulares e um a meio da parede do topo e outro na da Epístola. Esta é coberta por abóbada de um tramo estrelada, com arcos cruzeiros, cadernas e terceletes. Das cinco chaves sobressai a central onde campeiam as armas de Diogo da Azambuja. Dois outros fechos contêm ao meio uma cruz de Avis, merecendo especial realce a que é debruada por dois pergaminhos desenrolados onde se lê uma inscrição. Apresenta duas janelas com mainel do lado da Epístola.

Do lado do Evangelho surge o túmulo de Diogo de Azambuja. À esquerda do túmulo, situa-se uma porta manuelina que dá acesso à sacristia. Do lado do Evangelho: Capela do Sacramento, Capela das Almas. Do lado da Epístola: Capela dos Cotas, Capela da Anunciação e a capela da Deposição ou da Piedade.

O claustro é de planta quadrada, de dois andares, com contrafortes quadrados e dois arcos em asa de cesto apoiados em colunas dóricas entre eles no piso térreo e portas no piso superior. Este, datado de finais do século XVI, está dividido em dois pisos, abrindo o inferior em arcaria para o pátio central, onde se ergue no centro o fontenário, alimentado por uma linha de água. Para o claustro comunicam, numa tradição ainda medieval, as dependências colectivas, como a própria igreja, portaria, Sala do Capítulo e o refeitório e, através deste, a copa e a cozinha. A Sala do Capítulo e o refeitório, salas de dimensões harmoniosas, apresentam ainda nos seus portais cantarias que lhes conferem alguma dignidade.



[1] Mário José da Costa Silva – A Santa Casa da Misericórdia de Montemor-o-Velho. Espaço de sociabilidade, poder e conflito (1546-1803), p. 26.

ROTA DA DOÇARIA CONVENTUAL

Quando falamos da gastronomia de Montemor-o-Velho, temos que ter em conta a influência marcante da doçaria conventual.

A organização familiar e o estabelecimento do morgadio, lançaram nos conventos centenas e centenas de jovens mulheres, frescas solitárias noviças, mais aptas para o amor do que para a mística e o saltério.

Mas são elas, as criadoras dos pontos de açúcar, de uma cozinha e de uma doçaria excelente e excitante que atrai à roda dos conventos uma chusma de freiráticos, de estudantes, de clérigos e de poetas.

1. PRIMEIRA VIAGEM: PEREIRA

O viajante vai a caminho do Mondego. Deixou para trás Coimbra e entra nas terras de planura do Rio e, na sua margem esquerda, encontra enterrados grandes tesouros.

O primeiro é o Real Colégio Ursulino das Chagas fundado na Vila de Pereira no ano de 1748, tendo Iniciado o trabalho de ensino de meninas, somente depois de 1753. Vocacionado para o desenvolvimento das aptidões naturais do sexo feminino, os seus princípios pedagógicos, destinavam-se a fazer da menina ou da adolescente, uma mulher cristã, sabendo conciliar os afazeres domésticos com os deveres religiosos.

É neste contexto que se deve inscrever a receptividade local às religiosas da Ordem de Santa Úrsula, tendo a seu favor um passado, quase centenário, dedicado à instrução feminina e ao reconhecimento público da sua actividade pedagógica.

O seu percurso nesta localidade, foi marcado por períodos de grande privação, em especial aquando das invasões francesas e da guerra civil, obrigando a comunidade a refugiar-se em localidades mais seguras, nos momentos de maior perigo. Paralelamente, as dificuldades económicas e o reduzido número de educandas são quase uma constante.

Mas, parece que o corpo legislativo que saiu desta conjuntura revolucionária, em particular os decretos que proibiram o noviciado e extinguiram as ordens religiosas, respectivamente, de 1833 e 1834, não afectou muito este Colégio. Tal facto, talvez possa estar relacionado com o isolamento da localidade onde estava instalado, com o peso dos valores do catolicismo na mentalidade popular e com a reconhecida utilidade pública da sua actividade.

As consequências mais decisivas no evoluir da comunidade, parecem sim residir em toda uma série de epidemias, de origem palúdica que converteram a Vila de Pereira num local empestado e amaldiçoado quazi todos soffreram mais, e não poucos succumbiram, conforme escreve o jornal O Observador, no seu nº 35, de 3 de Fevereiro de 1848. Ainda segundo a mesma fonte, as causas eram motivadas pelas águas estagnadas do Paul de Arzila e pela falta de limpeza das respectivas valas; pela existência do cemitério no Adro da Igreja, ficando este mais baixo que a vala, acontecendo que os cadáveres eram enterrados, melhor diremos, mergulhados em agoa e com pouca profundidade; na má qualidade dos alimentos e na falta de assistência, pois, não raros foram os momentos em que o boticário se ausentava e o medico também padecia da moléstia.

Este cenário impôs o abandono definitivo desta localidade, para grande tristeza da população, já que ele era o único estabelecimento que dava a Pereira alguma concorrência e importância. Tal facto, veio a ocorrer em Março de 1848, transferindo-se o Real Colégio Ursulino das Chagas para o Convento de Santa Ana, em Coimbra. No entanto, a sua permanência aqui será breve. Assim, no dia 13 de Dezembro de 1851, pela manhã, toda a comunidade do Colégio, após requerimento da superiora e demais religiosas, é transferida para o extinto Colégio de S. José dos Marianos, actual Hospital Militar, ali permanecendo até o seu encerramento, em 1910.

Começou por ser uma pequena comunidade, formada pela filha, mulher e parentes de D. Francisco Botelho, no meado do séc. XVIII. O bispo D. Miguel da Anunciação mandou-lhes construir um pequeno edifício, segundo projecto do arquitecto Frei João da Soledade, para o qual entraram a 2 de Fevereiro de 1748. Em 1753 ã recolhidas ingressaram no instituto das Ursulinas, começando a ter um colégio feminino. O edifício foi-se ampliando, de modo a formar um quadrilátero em volta dum pátio central. As febres palustres obrigaram as religiosas a transferirem-se, em 1848, com o colégio para o convento de Santa Ana de Coimbra, do qual passaram para o colégio de S. José dos Marianos.

A parte que resta, a Quinta de São Luís, parece não ter feito inicialmente parte do colégio e ter sido adquirida tardiamente.

O colégio caiu na maior parte e no restante foi de tal modo transformado que se pode considerar desaparecido. Ao longo duma rua da povoação ainda se notam as paredes da modesta capela, e interiormente fragmentos de azulejo do século XVIII.

A Quinta de S. Luís conserva a elegante fachada do século XVII com algumas aberturas da parte baixa feitas no século seguinte, além das do presente. Flanqueavam a mesma fachada, no andar nobre, duas varandas entaladas, de quatro vãos, formadas de colunelos dóricos, levantados em parapeito. Rasgam-se seis janelas entre estas varandas e mais uma outra para além de cada uma destas. As suas arestas são boleadas e os aventais decorados. Estes são dum tipo raro no distrito e elegantes; o ornato é formado dum reticulado que se diversifica em cada um deles.

Saindo da Quinta de São Luiz, como hoje é vulgarmente conhecido o antigo Colégio das Ursulinas e atravessando a linha de caminho de ferro, poderá o viajante procurar nesse local as deleitosas queijadas. Mas siga o nosso concelho: coma-as acasaladas, pois, segundo a tradição, só assim o seu gosto será perfeito.

Continuando pela Vila de Pereira e após atravessar a linha de comboio, encontramos do nosso lado direito o Celeiro dos Duques de Aveiro, um edifício de arquitectura utilitária de óptima traça, não só quanto à funcionalidade do interior e perfeitamente adequada à função mas também quanto aos materiais empregues. O despojamento decorativo do edifício decorre naturalmente da função que ocupava. Classificado como Imóvel de Interesse Municipal, o celeiro foi construído no século XVI pelos Duques de Aveiro, tendo como função recolher os cereais, principalmente o milho, proveniente das terras do ducado. Há notícia do brasão dos Lencastre ter sido danificado no século XVIII.

Apresenta planta rectangular simples, regular e disposta longitudinalmente. A fachada principal é composta por pano único limitado pela escada de acesso ao segundo piso e pelo cunhal pétreo. Os dois pisos são definidos pela linha da fenestração, com uma janela gradeada e uma porta de volta perfeita no primeiro registo e uma fresta de emolduração em pedra, no segundo. A marcar a transição entre os dois, insere-se a escada de dois lanços, fruto de restauro recente o primeiro, sendo o segundo coberto por um alpendre assente em pilares, que cobre duas portas de verga recta, apresentando a principal o brasão dos Lencastre, no lintel. Remata em cornija simples que serve de suporte ao telhado de beiral saliente.

O alçado Norte tem pano único, limitado pelos cunhais e dois pisos rasgando-se no primeiro duas portas de verga recta e no outro uma janela quadrada com portadas de madeira, apresentando idêntico coroamento ao descrito atrás. O alçado Este com organização idêntica, varia no número de aberturas no primeiro registo, duas portas de verga recta alternando com duas janelas gradeadas e no segundo registo uma janela rectangular e duas frestas. A Sul do celeiro encosta-se a construção mais baixa, libertando o segundo registo do alçado, no qual se rasga uma janela quadrada.

O interior tem espaço único de duas naves separadas por arcada de pleno centro, com cobertura em abóbada de aresta, iluminadas pelas janelas e portas que se rasgam na estrutura murária.

Ao fundo da Rua da Misericórdia, aparece-nos de frente a Igreja pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Pereira, classificada como Imóvel de Interesse Público, Decreto N.º 95/78, DR 210 de 12 de Setembro de 1978.

A Igreja da Misericórdia de Pereira foi instituída numa antiga capela, dedicada à Senhora da Piedade, que continua a ser a padroeira actual. Esta capela era administrada por uma Confraria, com a mesma designação que possuía, para além da capela, Casa para Sessões, Torre de Despacho e Albergaria para acolher passageiros e peregrinos. Em 1498, o Juiz desta Confraria solicitou ao monarca, D. Manuel I, Privilégio de Misericórdia, uma mercê concedida, com Provisão e Compromisso, concretizados no ano de 1574, transformando-se em Irmandade de Misericórdia e constituída por 80 Irmãos. Fizeram-se obras de arranjo e complemento, confirmando-o uma pedra - cartorio anno 1724. Já antes de 1727 se mandara elaborar um projecto mas só com a entrada, nesse ano, para provedor, do capitão-mor Felix de Carvalho Pimentel, que serviu até 1753, se pensou seriamente na reforma. A 2 de Janeiro de 1729 assentaram-se as paredes (foi pedreiro António Gonçalves) Fizeram os madeiramentos dos telhados José Migueis e Francisco Neto. A 27 de Maio de 1730, estavam acabadas as paredes, madeiramentos e telhados. A frontaria só teve o remate definitivo nos anos de 1748-49, pelo pedreiro de Ançã, Matias de Andrade. A torre elevou-se de 1753 até 1757, obtendo os últimos arranjos em 1758, como indica a data sob o mostrador. A Misericórdia, ao longo dos tempos, tem-se regido por diversos Compromissos: 17/07/1748; 25/09/1861; 20/02/1870 e Estatutos de 22 de Agosto de 1913.

A fachada, tendo à esquerda a torre e à direita a nova casa do despacho, mostra um portal estilisticamente análogo ao do Colégio de S. Pedro, no pátio da Universidade de Coimbra, exemplo do barroco - joanino, raro na região centro. Enquadram o seu vão rectangular dois pares de colunas coríntias, o friso decorado de enrolamentos, sobre os começos de frontão interrompido assentam as esculturas rudes da Caridade e da Esperança. A meio, sobre o vão, uma composição de pilastras decoradas encerra um baixo-relevo, da Senhora da Misericórdia. No triângulo da empena, um escudo nacional entre decoração barroca, mais tardia.

A torre apresenta porta ornamentada e remate quadrado, bolboso e de fogaréus. A porta do despacho, de meados do século XVIII, é ladeada por duas colunas jónicas, englobando na composição a janela - sacada e varandim de ferro.

A igreja é de uma só nave, possui pavimento de mosaicos, tecto de arestas de madeira no corpo (sem pinturas) e capela - mor em estuque. O acesso à igreja faz-se por porta travessa a norte do corpo e pela porta da fachada, onde existe tapavento e confessionários de madeira. Sobre o tapavento, está o coro-alto (com orgão inoperacional) assente em duas colunas centrais e duas pilastras laterais decoradas, tendo as centrais pias de água benta circulares.

No corpo da igreja, ladeando o arco cruzeiro, estão altares colaterais com retábulos de talha nacional, enquadrados por colunas torcidas, da fase joanina e ornamentadas com motivos barrocos: vegetalistas, figurativos e fauníticos. As tribunas desses altares são ocupadas por esculturas de madeira de S. José e Santo António.

A capela - mor situa-se num plano superior ao do corpo, através de degraus de pedra. O retábulo maneirista é de largas composições salomónicas com grinaldas de flores e exuberantes construções do barroco - joanino onde predominam motivos vegetalistas, figurativos e fauníticos. Tem camarim central ocupado pela escultura de Nossa Senhora da Piedade. No remate está o escudo nacional apresentado por anjos tarifários. As esculturas maneiristas de Santa Ana e S. João Baptista enriquecem o retábulo principal.

Todos os retábulos, de colunas torcidas, da fase joanina (o altar-mor data de 1731 e os colaterais de 1738), foram executados por Jerónimo Ferreira de Araújo, mestre entalhador.

Possui a tribuna usual dos mesários, típica das Misericórdias, colocada à direita e de colunas lisas jónicas. A capela - mor e o corpo da igreja revestem-se de painéis de azulejos, enquadrados em composições concheadas com altas e decoradas cabeceiras recortadas, azuis na capela - mor e polícromos no corpo. São puro fabrico coimbrão, de oficina artesanal, obra executada entre 1770 e 1785. Os da capela - mor representam temas Marianos e os do corpo evocam cenas da vida de Jesus Cristo, sendo à direita cenas da infância e à esquerda da Paixão alternando com paisagens.

Sob a Casa do Despacho, do lado direito da Igreja, fica a Casa do Lavabo, local provável da antiga capela, singelamente decorada e a sacristia onde está um arcaz de almofadas, obra do mestre carpinteiro de Santo Varão, Manuel João Seco, executado antes de 1744. O tecto é de madeira pintada de enrolamentos e grinaldas a envolver o escudo nacional executado por Domingos Correia e Manuel Pereira, em 1748.

Mas a abordagem do património edificado de Pereira não estaria completa se não referíssemos a Igreja Matriz de Santo Estêvão, localizada perto da Igreja da Misericórdia, também ela classificada como Imóvel de Interesse Público, Decreto N.º 38491, DG 230 de 6 de Novembro de 1951. É um edifício típico provinciano da transição de quinhentos para seiscentos, apesar de ter três naves (elemento raro em edifícios deste género). Apresenta planta simples longitudinal e cobertura de madeira nas naves, paredes planificadas e simples aberturas, notando-se no portal Sul e na janela do coro a presença da decoração barroca de setecentos.

Nada se sabe sobre a sua fundação, no entanto, quando foi demolido o cunhal do primeiro arco da nave, junto à capela-mor, dizem que apareceu uma pedra redonda, como as dos moinhos. Nela gravava-se, em relevo, dum lado um lavrador curvado sobre o arado que era puxado por uma junta de bois e tinha, perto, um saco cheio atado pela boca que um rapaz tentava desatar. No reverso, estavam um carro, umas grades, um rodeiro, uma carga, solas, etc, tendo em volta a seguinte legenda: Os lavradores, os caseiros e mais povo, as nossas custas. Esta pedra desapareceu em data incerta.

A Igreja assenta sobre uma mais antiga, estando agora a um nível superior, devido a alteamentos sucessivos do pavimento (uma vez que era constantemente inundado pelas enchentes do Mondego). Desde o século XVI (1595) tem sido alvo de obras e restauros custeados pelo Erário Régio, Confrarias do Santíssimo e Almas, Bulas de Cruzada, legados de Santa Maria e esmolas do povo.

O pároco era de apresentação do padroado real, tendo o rendimento de 300$000 reis. Porém, mais tarde e até 1755, a apresentação do pároco pertenceu aos Duques de Aveiro e tinha, nesse ano, um rendimento superior a um conto de reis. O Cura da Igreja recebia o rendimento do pé do Altar e Passal, quantia insuficiente para subsistir e custear vinho, hóstias, cera, azeite, etc. Daí, o edifício estar sempre em ruína, a ponto de, em 1754, o Juiz da Igreja, António de Lemos, solicitar subsídio urgente ao Bispo de Coimbra, procurando evitar a queda da abóbada. Em 1767, os dízimos rendiam 320$000 (pagos em quatro vezes), arrematados a 14 de Maio e contrato firmado por escritura entre o Prior, Pedro Mascarenhas de Mancellos e Francisco Jozé Cotovia, de Pereira.

A porta lateral tem um pórtico concebido pelo mestre canteiro de Pereira, João Pereira Leytão, entre os anos de 1773 e 1774, custeado pelo Provedor da Comarca, o Dr. Manuel da Silva Carvalho, por 200$000 reis. Em 1787, João Pires da Cruz Mayo, o moço, e Jozé Pires Mayo, mestres pedreiros de Pereira, ajustaram consertos nos telhados da capela-mor, sacristia e capela das Almas, por 40$000 reis, a pagar pelo Legado de Santa Maria. Existem notícias de mais pequenos restauros em 1805 e 1853. Os pavimentos, inicialmente de madeira e pedras sepulcrais, passaram, a partir de 1840 (aquando da proibição de enterramentos), a lages de pedra, calçada e asfalto, até um misto de mosaico e lajedo.

Em 1867, a Igreja sofreu grandes danos devidos às fortes cheias do Mondego. A Junta de Paróquia pediu apoio ao Governo, seguindo-se o início das obras custeadas pelo Bispo de Coimbra, Sua Magestade e pelo povo de Pereira. A actual torre advém de uma construção iniciada em 1876 e concluída em 1897. O projecto e supervisão foi da responsabilidade do engenheiro Miguel Silveira Azevedo e os custos foram suportados pela Junta de Paróquia, legado de Santa Maria e confrarias das Almas e Santíssimo Sacramento. Os sinos foram colocados na torre em Agosto de 1895, as obras foram concluídas em 1897.

A 12 de Março de 1960, uma faísca demoliu um cunhal, mais tarde reparado pelos Monumentos Nacionais. O coro foi objecto de reformas e reparações no século XVIII. Desde os anos 50 do nosso século até à actualidade, este edifício sofreu intervenções da Direcção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais: 1952 - reparação da cobertura da torre sineira, da sacristia e reconstrução da parede esquerda da nave; 1955 - reparação dos tectos; 1956 - reparação das paredes e pavimentos da sacristia; 1957 - reparação do muro do adro; 1959 - reparação dos altares e retábulos; 1960 - reparação geral da torre; 1963 - instalação eléctrica; 1986/1987 - obras de beneficiação; 1998 - reparação das coberturas da sacristia e capela-mor, drenagens exteriores.

A praia fluvial, na vila de Pereira, com o aproveitamento das belas paisagens do rio, local de lazer e convívio.

SEGUNDA VIAGEM: TENTÚGAL

Atravessando os campos do Mondego e como escreve José Saramago, na sua obra Viagem a Portugal, Para Tentúgal, não tem nada que errar. É ir a direito pela estrada de Coimbra, há um desvio, está logo lá. Não faltam em Portugal povoações que parecem ter ficado à margem do tempo, assistindo ao passar dos anos sem mover uma pedra daqui para ali, e contudo sentimo-las vivas de vida interior, quentes, ouve-se bater uma coração[1].

Aqui, o viajante deleita o seu olhar numa vila que guarda o ar de um passado de nobres esplendores, podendo também encontrar alguns locais de cariz regional para almoçar.

Entrando em Tentúgal, chegamos ao Largo da Chieira e Relveiro. Aqui vislumbramos uma panóplia de obras-primas arquitectónicas. A primeira não poderia deixar de ser a Igreja da Misericórdia, classificada como Imóvel de Interesse Público, Dec. N.º 37728, DG 4 de 05/01/1950.

A Misericórdia de Tentúgal deve a sua fundação ao Rei D. Filipe I que, por Alvará datado de Lisboa de 6 de Março de 1583, mandava anexar à Misericórdia a Irmandade de S. Pedro e S. Domingos e o hospital que esta administrava. Seguia assim a corrente que desde D. Manuel vinha sendo adoptada.

É curioso notar que Tentúgal foi das poucas vilas, em cuja Câmara, em 1580, se proclamou Rei a D. António Prior do Crato, apesar de D. Filipe I ter mandado construir a Misericórdia e ter concedido grandes privilégios ao Convento.

As obras da Igreja começaram pela fachada por volta de 1583, data dos primeiros pagamentos a pedreiros para abrirem os alicerces, bem como carregamentos de pedra de Portunhos e de Ançã. Estas obras prolongaram-se por algum tempo e, ainda em 1587/88, Manuel Fernandes trabalhava na empena do portal (esta foi posteriormente alterada, sofrendo remodelações no século XVIII). Em 1592, foi paga a Francisco Rodrigues a pia de água benta e em 1595 despesas com a construção da sacristia.

O retábulo principal, também da autoria de Tomé Velho, estava concluído em 1600. Em 1687/94 foi construída a tribuna dos mesários, obra de Francisco Rodrigues e em 1722 foi renovada a torre e certamente o alto da frontaria.

Em 1914, ocorreram obras na Igreja, ficando profanada e daí a necessidade de a benzer e levar o Provedor a solicitar ao bispo de Coimbra o seguinte requerimento:...achando-se profanada a capela da Santa Casa da Misericórdia de Tentúgal em consequência de se terem ali realizado obras que estão concluídas, resolveu esta Irmandade solicitar a V. Ex.ª R.ma autorização para ser benzida, como foi recentemente nomeado Capelão o R. do Bernardo Augusto de Souza Monteiro vou rogar a V. Ex.ª que este o escolhido para esse fim, ou o Sr. Arcipreste R.do Abel d'Almeida e Souza, de modo a poder ser utilizada a dita Capela para no próximo Sabado 28 do corrente receber a Imagem do Senhor dos Passos destinada a Matriz segundo antiquíssimo costume. Tentúgal, 22 de Março de 1914 // O Provedor, António Soares Couceiro // A licença e Provisão de benção foi concedida a 24 de Março de 1914 assinada pelo conego Rui de Andrade.

O arco existente entre a Igreja e a Casa do Despacho (entaipado) é anterior à extinção dos vínculos (1863) e dava serventia para os edifícios do beco. Os Monumentos Nacionais intervieram na Igreja por diversas vezes: em 1979, reconstruíram a cobertura em pré-esforçado; em 1981, repararam o tecto e fachadas; e em 1986/87, realizaram obras de beneficiação (conclusão do restauro).

Em termos arquitectónicos, é uma vasta construção que tem anexa a Casa do Despacho e outras dependências, em puro estilo da Renascença, dos fins do século XVI, constituído por um paralelepípedo rectangular sem capela-mor, substituída por altar-mor. Este destaca-se ao fundo da sua ampla nave, assente sobre uma tribuna, à qual dão acesso duas elegantes escadarias laterais, de pedra, tendo estas e a tribuna uma magnífica e bem trabalhada balaustrada, boa obra de tornearia seiscentista. Sob a tribuna, há um grupo escultórico, da mesma época e dos mesmos artistas, representando uma Deposição no Túmulo (o Senhor Morto e, a velarem-no sete bustos que formam um círculo de ternura).

Toda a altura e largura da nave estão ocupadas por um retábulo em pedra de Ançã, de finais do século XVI, também da Renascença, de boa qualidade mas não tão exuberante como o da igreja matriz. São trabalhos da escultura coimbrã, idêntica aos da Igreja da Misericórdia de Montemor-o-Velho. De composição única abrangendo as três mesas, tem colunas no andar baixo e colunelos-balaústres no alto, abrigando baixos-relevos e imagens soltas: ao centro a Visitação e a Senhora da Misericórdia, em baixos-relevos; nos intercolúnios as estátuas dos Doutores Santos Gregório e Agostinho, Ambrósio e Jerónimo; nos espaços imediatos aos baixos-relevos da Anunciação, Adoração dos Pastores e Adoração dos Magos, Sonho de S. José, Natividade da Virgem e Apresentação no Templo; nos extremos as esculturas de S. Pedro e dum Santo Bispo, ladeados de dois anjos, um como porta-báculo, outro turiferário; acima vêem-se dois baixos-relevos, de S. Domingos e de S. Francisco. As três mesas são de madeira do século XVIII.

De salientar também uma tribuna lateral, tribuna dos mesários, datada de 1687/94, tendo, na frente, três vãos, divididos por duas colunas dóricas de fuste canelado sobre podium e um gradeamento de ferro batido. Aqui foi colocada uma charola de oito colunas torcidas, do fim do século XVII, com Cristo flagelado.

Do lado esquerdo, um púlpito elementar com escadaria e bacia em pedra, envoltos num corrimão assente numa balaustrada em madeira. A sacristia tem um rodapé de azulejos, restos de um padrão polícromo do século XVII.

Na fachada, o pórtico (constituído por duas colunas coríntias e arco decorado, de duplo aro), verdadeira obra-prima da Renascença e a ladear o portal encontram-se o anjo inspirador da Rainha D. Leonor e esta soberana com trajos da corte, em atitude votiva, o escudo dos Cadavais/Marqueses de Ferreira/Condes de Tentúgal ao meio e a data de 1586. Ambas as esculturas estão apoiadas em elegantes mísulas e encimadas por dois rendilhados dóceis. O pórtico é encimado pela janela do coro enquadrada por pilastras, à qual se sobrepõe o baixo-relevo da Virgem da Misericórdia, com o letreiro - MISERICORDIAS D(OMI)NI e a cruz, posterior, de ornato popular.

A torre, à esquerda do edifício, datada de 1722, tem uma ventana de cada lado e um remate piramidal coberto com azulejos azuis e brancos. Um dos sinos tem a data de 1840 e outro a de 1897, sendo este fundido por José Augusto, de S. João das Areias. O patamar apresenta grade de ferro, de varões anelados (séculos XVI-XVII). A igreja tem duas portas laterais a comunicar com a rua: a do norte ia ter a uma espécie de beco com serventia para o arco (entaipado) e a do sul para uma pequena travessa entre a igreja e o Solar dos Viegas de Novais.

Em frente da Igreja está a Capela de Nossa Senhora das Dores. É um edifício do século XVIII, de nave única. Antigamente, tinha o orago de Nossa Senhora da Oração.

Mantém um pórtico estilo D. João V (Joanino), com porta principal rectangular, ladeada por pilastras hermes com o escudo da Paixão entre os enrolamentos do frontão interrompido. Este é encimado por um óculo quadrilobado. As duas portas travessas apresentam cimalha ondulada, preenchida por uma concha.

Tem, no seu interior, três retábulos de duas colunas: o principal (do Calvário) e dois colaterais, São José e Nossa Senhora das Dores. Num nicho lateral, encontra-se a cabeça e duas mãos de São Cristovão e a escultura de São Brás, do século XVI.

Daqui percorremos algumas ruas deste Centro Histórico tão rico e chegamos à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Mourão, classificada como Imóvel de Interesse Público, Decreto N.º 37728, DG N.º 4 de 05/01/1950. D. João I, a 11 de Janeiro de 1417, doou Tentúgal a seu filho, D. Pedro, incluindo o padroado da Igreja, ou seja, os dízimos.

A Igreja antiga ainda existia como paróquia, mas alguns anos depois, D. Pedro mandou construir uma nova, de grandes dimensões. Ignora-se se terá sido após a construção do novo templo que a Igreja passou a ser Priorado. Há noticia de um Prior, falecido antes de 1434, de nome António de Vasconcelos e que foi sepultado no Convento velho de S. Domingos de Coimbra. Assim, a Igreja teve Reitor até 1288, depois Vigário até 1420 e a seguir Prior.

Confiscados aos bens a D. Pedro, passou o padroado da Igreja para os Reis e, depois, por carta de troca, efectuada a 28 de Julho de 1476, para D. Álvaro, filho do Duque de Bragança. A um filho deste, Rodrigo de Mello, concedeu o Papa Paulo III, pela Bula de 2 de Dezembro de 1541, duas terças partes dos rendimentos desta Igreja para com eles instituir benefícios simples. Esta situação manteve-se até à extinção dos Padroados em 1833.

A esta igreja esteve associada a Confraria de Nossa Senhora da Assunção e Mártir São Sebastião. Foi a segunda confraria mais rica de Tentúgal. O Livro da Confraria apresenta informações importantes sobre a sua fundação e história: foi criada e ordenada pelas principais pessoas de Tentúgal, para que em seu louvor se celebrassem os ofícios solenes e se festejasse o dia com todas as festas. Juntou-se-lhe a Confraria do Mártir São Sebastião, uma vez que o prior era seu devoto, para além de existir na Igreja uma relíquia daquele mártir. Os Capítulos da instituição foram aprovados pelo Bispo-Conde D. João Galvão, a 11 de Junho de 1556. A eleição dos confrades que administravam era sempre realizada no domingo seguinte à festa de Nossa Senhora da Assunção, onde se elegia um juiz, um regedor, um escrivão e um capelão. A instituição da Confraria teve lugar em Tentúgal a 8 de Agosto de 1555, dez anos depois da construção do retábulo do altar-mor, cujo orago é Nossa Senhora da Assunção, datado de 1545. Além do que estava estabelecido nos Estatutos e Compromisso, os administradores decidiram, a 1 de Janeiro de 1559, rezar uma missa todas as segundas-feiras, no altar de S. Sebastião onde estava a relíquia. Este altar estava situado provavelmente no lugar onde está hoje a Capela de Nossa Senhora do Rosário. A imagem do mártir esteve durante séculos num nicho do referido altar e no início do século XX foi vendida pelo Prior, que a substituiu por uma imagem moderna de terracota. A 26 de Agosto de 1570 foi decidido que se devia rezar missa no dia em que algum deles falecesse. O primeiro acordão foi assinado por Jorge Moniz e o segundo por Jerónimo Moniz, Braz Lobo e Pedro de Carvalho. No livro da Confraria aparece também a lista de confrades em que entraram em 1555, um dado muito importante porque enumera as principais famílias de Tentúgal em meados do século XVI, muito antes dos livros de registos paroquiais (1577). Esta confraria foi anexada à do Santíssimo por Provisão ou Alvará do Príncipe Regente D. João, de 20 de Setembro de 1800 (?).

Este edifício sofreu diversas intervenções pela Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais: 1948 - reconstrução de telhados; 1960 - substituição do tecto da capela-mor, pavimentação, arranjo das capelas laterais, reparação da escada exterior de acesso à torre; 1963 - reparação de rebocos interiores, da teia do coro e do vitral da capela-mor; 1995 - obras de recuperação de coberturas; 1996 - reconstrução de rebocos exteriores, drenagens; 1997 - consolidação do coro-alto, reparação e limpeza dos tectos da nave e capela-mor; restauro e conservação de pinturas em tela e tábua; 1998 - obras de beneficiação interior: reparação do tecto da capela-mor e respectiva estrutura de suporte, conservação do zimbório da capela da Epístola, substituição do fuste das colunas de suporte do coro-alto, etc.

Trata-se de uma construção com características de meados do século XV, apresentando alterações de obras dos dois séculos seguintes. O pórtico, a rosácea e o exterior são da primitiva construção (estilo gótico simples), bem como a torre, apesar de ter sofrido pequenas modificações posteriores (escada exterior e acessível por uma porta gótica. Na parte superior da torre abrem-se duas janelas de arcaria, para sinos, uma delas possuindo, na parte de dentro também uma arcaria gótica. É ameada e tem uma cúpula rematada por um catavento.

O corpo da igreja tem, exteriormente, vários acrescentos, nomeadamente, as Capelas do Santíssimo, de Jesus e uma outra onde esteve o Senhor dos Passos; a sacristia nova e a sacristia velha, todas obras posteriores à primitiva fábrica.

Nas paredes laterais da Igreja há duas portas góticas pequenas (a do lado sul foi entaipada pelo lado de dentro). Nas mesmas paredes laterais, norte e sul, existem quatro frestas horizontais que também foram entaipadas interiormente quando da construção das capelas ou altares laterais nos finais do século XVI e princípio do seguinte.

Outro aspecto bem visível na parede da frontaria é que o telhado antigo era muito mais alto e tinha maior inclinação do que o actual, o que daria ao edifício um aspecto muito mais harmonioso e equilibrado.

No interior impera o estilo renascença, com excepção da Capela do Santíssimo Sacramento. É assim constituído pelo altar-mor, Capela do Senhor Jesus ou Senhor dos Passos, Capela do Santíssimo Sacramento, Capela de Nossa Senhora do Rosário, Capela de Nossa Senhora da Conceição, Capela das Almas, Capela do Espírito Santo, baptistério.

O tecto da igreja é de madeira, em cúpula, do século XVIII. O coro, também de madeira, assenta sobre quatro colunas dóricas, de pedra. Provavelmente, estas obras são da autoria do Prior D. Jayme de Mello. O pavimento é todo de lages grandes entremeadas por túmulos, alguns com dizeres apagados, actualmente coberto com sobrado de pinho, que lhe tirou os vários níveis, muito vulgares nos templos antigos. Além dos dois túmulos da capela-mor, existe um outro, entre as grades da capela-mor e do transepto, do Prior Diogo de Mello. Dentro do edifício, de cada lado do pórtico principal e a meia altura, estão duas cruzes de templários, de pedra, incrustadas na própria parede. Isto prova que a Igreja foi sagrada por um Bispo.

Já no coração do Centro Histórico encontramos a Torre do Relógio, também ela classificada como Imóvel de Interesse Público, Decreto N.º 37728, DG n.º 4, de 05/01/1950, sendo uma construção de origem medieval, denotando ainda feição gótica, não só numa certa verticalidade como no tipo de aberturas e coroamento. Fazia parte do edifício dos Paços do Concelho e é idêntica à torre da igreja matriz.

Há autores que afirmam que terá sido a torre de menagem de uma fortificação, o que nos parece pouco provável. Pode é esta ter sido construída no sítio da anterior. No século XVIII, Luiz Cardoso afirmou que a torre parecia ter servido para observação e que segundo a tradição teria sido edificada pelos mouros. Elogiou ainda a dureza do material utilizado na sua construção, uma vez que apesar das paredes serem delgadas e com uma altura considerável, não apresentava qualquer sinal de deterioração, sustentando dois sinos, um da Câmara e outro do relógio. Tal como já afirmámos não nos parece muito verosímil esta hipótese. Por outro lado, há quem afirme que a torre fazia parte do castelo ou dos Paços do Concelho. Também segundo a tradição, existem referências a umas estrebarias do Infante D. Pedro, duque de Coimbra, no local onde está o largo (atrás da torre), bem como parece ter havido ali no século XIX umas casas velhas com uma janela manuelina semelhante à da Quinta do Lapuz.

Deve ter sido mandada construir pelo Infante D. Pedro, talvez sobre construção anterior. Foi torre do relógio da Câmara de Tentúgal e actualmente é pertença da Junta de Freguesia.

Em 1974, a Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais realizou a reparação dos rebocos, da escada e dos refechamentos interiores, assentamento do pavimento e da porta.

Trata-se de uma torre quadrada, estreitando na altura, com porta gótica (arco quebrado com arestas chanfradas em triângulo, para a rua principal. No interior tem outra também gótica, entaipada, que confina com as antigas casas da Câmara à altura do primeiro andar. No rés-do-chão existem ainda vestígios góticos, duas arcarias antigas e alguns tectos abobadados. Um pouco acima da altura dos telhados, há uma janela gótica na parede sul da torre e uma seteira cruciforme. Nas faces surgem ventanas e um relógio. A construção é coroada por quatro merlões.

Chegado ao vetusto Largo do Rossio, o viajante encontra o majestoso edifício do Convento de Nossa Senhora da Natividade. Esta casa monástica tem a sua origem na Confraria de São Pedro e São Domingos de Tentúgal. Esta confraria possuía avultada extensão de terras cujos rendimentos eram aplicados na satisfação de obrigações da comunidade (entre elas a celebração de três missas diárias na Ermida com o mesmo nome). O sobejo desses rendimentos, eram aplicados em esmolas de géneros e espécies aos mais pobres da vila.

Contudo, muitas vezes estas verbas eram aplicadas de forma menos escrupulosa, beneficiando quem não tinha necessidade. Assim, em certa ocasião reuniram-se todos os regedores da Confraria e determinaram, por comum acordo, aplicarem as rendas da Confraria na fundação de um convento de freiras da Ordem de S. Domingos, por ser padroeiro da mesma confraria, com a condição de que se retirasse parte para os pobres, missas e reparação do hospital. Depois deste acordo, pediram ao Papa e a D. Sebastião que deferissem a petição e mandassem passar as suas bulas e provisões, tendo ambos assinado estes documentos.

A data da fundação deste convento é controversa, sendo a mais provável recair no ano de 1565, uma vez que apesar da boa vontade dos irmãos da confraria em fundarem um convento da ordem de S. Domingos, o seu desejo nunca foi realizado. Só mais tarde, algumas pessoas de maior influência de Tentúgal determinaram a fundação de um convento de religiosas do Carmo e por isso solicitaram as bulas papais necessárias. E foi este que foi construído.

Os beneméritos lançaram a primeira pedra a 8 de Setembro de 1565, data comemorativa do nascimento de Nossa Senhora, que ficou sua padroeira. O convento foi edificado na Ermida de São Pedro e São Domingos, sendo provável que o primitivo edifício da igreja do convento fosse mesmo esta ermida. A Confraria cedeu a ermida mediante o pagamento de 150 cruzados para edificar a Misericórdia.

O Conde de Tentúgal, D. Francisco de Melo, assumiu os direitos de padroado, apresentando as primeiras 15 freiras que iriam ocupar o convento. Estas proveriam outras 15 para perfazer o número de ocupação total do convento. As primeiras religiosas entraram no convento a 8 de Setembro de 1572 (algumas delas vieram do Convento da Esperança de Beja).

A construção e a manutenção desta casa conventual fez-se a expensas das rendas da Confraria, a legados do instituidor, o Conde de Tentúgal, e aos dotes das religiosas que a iam integrando. Apesar disso, as despesas eram muitas e as religiosas viveram com graves dificuldades. Queixaram-se, então, ao Provincial que solicitou a D. Filipe auxílio para elas, o qual, por alvará de 10 de Outubro de 1596, concedeu grandes benefícios em matéria de mantimentos.

Devido à falta de verbas a construção foi irregular e prolongada. O edifício actual é uma reforma do século XVII, significando a data da porta da igreja (1633) e a de 1632 num friso interior o início daquela reforma e principalmente em relação à igreja. A data de 1693, que se via na cruz do remate da ala lateral, deveria corresponder ao fim das obras da parte conventual.

As religiosas viveram sempre com grandes dificuldades, como é exemplo a situação em que se encontravam em 1816: caíram os muros da cerca, tinham entregue todas as preciosidades de ouro e prata que ornavam a igreja para contribuição de guerra, foram despojadas com os roubos das invasões francesas. Consequentemente, pediram ajuda à Duquesa do Cadaval que as isentou do pagamento de alguns impostos e as beneficiou com algumas rendas.

Em 1834, este convento foi extinto conforme decreto governamental, permitindo-se, no entanto, às religiosas a permanência no convento até à morte da última freira, que ocorreu a 18 de Fevereiro de 1898. A última religiosa, D. Maria Maximina do Loreto, ali viveu, morrendo com as ruínas da sua casa a 18 de Fevereiro de 1898.

Já no século XX, o convento foi abrigo de recolhidas, ou seja, mulheres que sem professarem a ordem ali viviam, para auxílio e companhia das freiras. Ao que parece, foi D. Maria da Glória a última sobrevivente, tendo sido coagida a sair aquando do arrasto ao Convento pela Fazenda Pública, em 1911, acabando por falecer em Coimbra, em casa de familiares, durante a década de 30.

Inicialmente, o Convento ocupava uma área considerável e era constituído por vários corpos díspares, sem claustro. A ligação de cornijas e de cunhais nas fachadas da igreja e da portaria mostra que estas partes foram concebidas e realizadas com harmonia arquitectónica.

Actualmente, conserva-se a igreja, a portaria (incompleta) e quase toda demolida a parte dos dormitórios.

A fachada principal mostra, à esquerda a portaria, e em plano mais avançado a igreja. A portaria tem entrada rectangular, ladeada por pilastras, com um nicho no remate, com uma escultura de Santa Teresa. Às frestas deitadas das lojas seguem-se as janelas de entresolho e as grandes do andar nobre. No ângulo do edifício destaca-se, acima da cimalha, o mirante de desafogo, com as rótulas de pedra. O interior da portaria apresenta a roda conventual e restos de azulejos polícromos. A parte que resta da parede perpendicular do convento é de tipo utilitário.

A fachada da igreja aparece dividida por pilastras em dois tramos: o dos coros, de janelas simples, e o do corpo, rasgando-se neste o portal entre duas altas frestas. O portal, rectangular entre pilastras dóricas, é rematado por um nicho com uma Santa Teresa de pedra e ladeado por dois altos pináculos. Os batentes, de fortes almofadados e pregaria, são bons exemplares de seiscentos.

Tanto o corpo como a capela-mor são abobadados de pedra, em quartelas com bocetes decorados nos claros. A capela-mor foi a primeira a estar concluída, talvez antes de 1616. O arco cruzeiro, de molduras e ornatos clássicos, é bem concebido. Ao lado esquerdo da capela-mor encontra-se a janela gradeada do comungatório, ladeada de dois postigos.

Os retábulos, de madeira, são da segunda metade do século XVIII, de ornatos concheados: o mor, de tribuna central e duas colunas laterais; os outros só de duas colunas. As esculturas são obras correntes da mesma época. Envolve a igreja um alizar de azulejos polícromos, de tapete, de fabrico de Lisboa, do século XVII.

A pequena torre levanta-se ao lado do coro e ao oposto da rua. É do final do século XVIII (1800), com cobertura oitavada, revestida de azulejos polícromos do século XVII.

Os coros abrem-se para a igreja por duas grandes janelas rectangulares sobrepostas, com grades de ferro, sendo duplas as inferiores. No coro de baixo encostam-se às paredes quatro pequenos retábulos ou nichos dos séculos XVII e XVIII. O coro de cima tem cobertura de madeira, em forma de gamela, repartido em painéis, sendo o central reborado de um largo rótulo em relevo, do século XVII. O cadeiral é singelo, seiscentista. A cerca ocupa uma área de vegetação onde se inclui uma azenha, desactivada (que foi incendiada) onde ainda restam alguns azulejos e uma fonte, em avançado estado de degradação.

Estruturado para a liturgia e para o social, ao convento não faltava também a botica, onde se preparavam os ingredientes para as sigilosas receitas terapêuticas contra as pestes e febres, aplicadas no hospital, situado mesmo em frente do Convento.

Aliás, não fora esse secretismo, a que o juramento as obrigava, bem como a posterior e significativa devastação do seu património documental, poderíamos hoje conhecer e provar todos os deleitosos manjares que o tempo levou consigo.

Como afirma Alfredo Saramago, os doces eram as formas escolhidas para representação das comunidades conventuais e, por essa razão, deviam ser o reflexo da casa monástica, tentando colher o reconhecimento de quem os comia. Para celebrar acontecimentos relacionados com a vida do convento, eram oferecidos doces, constituindo também requintados presentes, oferecidos por abadessas e prioresas aos reis e mais altos dignitários.

Ali mesmo, entre o silêncio das grossas paredes do convento, encontraram no exercício da cozinha, o complemento para as horas litúrgicas, uma alternativa para os encantamentos e os enlevos da música, uma transfiguração para os rigores ou para as surpresas da grade[2].

Não podemos ignorar que tanto a organização familiar, como o estabelecimento do morgadio, lançaram nos conventos, na sua grande maioria filhas da nobreza levam consigo criadas, açafatas e até mesmo escravos que as auxiliam no exercício de tarefas servis ou menos dignas, ficando livres para outras funções, como seja o canto, as rendas, os bordados e registos, as técnicas do papel recortado e a doçaria.

Em Tentúgal, tal como em outros conventos, os doces foram consequência de hábitos alimentares refinados, de exigentes paladares, confeccionados para regalar as pessoas que habitavam os conventos ou que lhes eram próximas.

Porém, quando o convento começou a empobrecer, os doces mudaram de destino, indo parar à roda da portaria, à espera de serem trocados por algumas moedas que equilibrassem a economia doméstica.

Ao que tudo indica, parece que a receita dos pastéis teria saído das portas do Convento antes de 1898. Aquela, surge mencionada em inúmeros livros de cozinha, só que o seu fabrico envolve todo um ritual celebrado entre o tempero das mãos, a farinha e a água que de pouco valem os receituários. Há uma entrega do espírito na confecção do material, tornado obra de arte, conseguida através de muita sabedoria, muito ritmo, muita aprendizagem. Diz-se até, ser ao som do piano que as doceiras de Tentúgal, ritmavam o fabrico da massa das folhas finíssimas que envolvem os ovos-moles.

No Convento de Nossa Senhora da Natividade, as irmãs conserveiras, normalmente duas, entregavam sigilosamente, o testemunho receituário da voluptuosa culinária conventual às suas sucessoras. Doces de requintada composição em que o açúcar, os ovos, o mel, a amêndoa raramente faltavam, apenas variando a quantidade e a forma. Apesar de só ficarem para a história os pastéis e as queijadas de Tentúgal, existia toda uma infinidade de doces, muitos deles por influência marcante dos Conventos de Beja que conseguimos compilar.

Tomando como prologo estas palavras, justifica-se uma paragem nas várias unidades de fabrico da doçaria, para que o viajante possa não só saborear pausadamente as delicias de Tentúgal, como ver ao vivo o ritual da sua concepção.



[1] José Saramago, Viagem a Portugal, p. 92.

[2] Paulino Mota Tavares – Mesa, Doces e Amores no séc. XVII português, p.13.